Uma noite imperfeita

Ao conduzir a Osesp na noite de quinta, Esa-Pekka Salonen prova: há obras que exigem mais do maestro do que da orquestra

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

02 Abril 2011 | 00h00

Aos 52 anos, o dublê de compositor e regente finlandês Esa-Pekka Salonen parece ter se rendido ao cânone da música contemporânea norte-americana, sem dúvida por causa dos 18 anos, entre 1992 e 2009, em que viveu em Los Angeles como titular da orquestra hoje dirigida por Gustavo Dudamel. Helix, a obra de dez minutos que abriu o concerto de quinta-feira da Osesp na Sala São Paulo, poderia ser assinada por um John Adams, mas nunca por sua ex-colega de estudos Kaija Saariaho em Helsinque. É mera peça de efeito. O melhor é óbvio: o pulso cada vez mais acelerado, enquanto as notas se alongam, criando uma espiral, ou hélice, do título. Mas justiça seja feita: no CD de 2008 da DG com Helix, Salonen mostra obras mais interessantes: o concerto para piano e a peça para piano solo Dichotomie, com Yefim Bronfman.

Se Joana Carneiro, ex-assistente de Salonen em Los Angeles, foi bem em Helix mas a partitura não era lá essas coisas, o contrário aconteceu na sequência. Houve problemas nos Poemas para Mi, ciclo de nove canções, obra-prima de refinamento e inovação de Olivier Messiaen, que canta o amor santificado no casamento.

Para começar, ele deixou claro que queria uma voz de soprano dramático, wagneriano, para estranhamente incorporar sua voz de marido apaixonado (as canções fora m escritas para sua mulher Claire Delbos, sua Mi). Messiaen mesmo escreveu os poemas em 1936 e orquestrou-os no ano seguinte. Não usa barra de compasso, contrapõe frases a capela da soprano às finas intervenções orquestrais (em delicados jogos timbrísticos entre madeiras e cordas) e já ensaia seus "modos de transposição". Infelizmente, a bela voz da paraense Carmen Monarca (coadjuvante do violinista-show francês André Rieu em turnês internacionais) não é pesada como a de um soprano dramático; é leve, típica do soprano lírico (Eliane Coelho tem voz mais adequada). Para piorar, Carneiro insistiu em desconhecer o fato: a orquestra cobriu quase sempre a voz da solista, e a regente não reproduziu as sutilezas dinâmicas da partitura de Messiaen. Pena. Obra-prima no papel, os Poèmes pour Mi soaram entediantes ao vivo.

A segunda parte comprovou as suspeitas iniciais. Há obras que exigem mais do regente do que da orquestra. As duas suítes de Daphnis et Chloe costumam ser programadas quando querem mostrar seus cartões de visita de "maestria". Joana Carneiro regeu corretamente, mas essas suítes requerem mais do que o convencional. A partitura requer uma condução delicada para emoldurar este ou aquele solo, construir dinâmicas com cuidado e fazer emergirem os jogos de timbres inusitados e tão característicos de Ravel. Nesse sentido, a Osesp foi correta, mas Carneiro ficou devendo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.