Uma noite de esperança

Moradores acompanham no Jardim Gramacho, retratado em Lixo Extraordinário, transmissão do Oscar e esperam por condições melhores

Felipe Werneck, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2011 | 00h00

De cima do palco montado na principal praça de Jardim Gramacho, bairro de Duque de Caxias onde há 34 anos funciona o maior lixão da América do Sul, o catador Alexandre Freitas, o Gordin, de 34 anos, resumiu em um gesto o sentimento de toda a comunidade. Quando foi anunciado o vencedor do Oscar de melhor documentário, transmitido ao vivo no telão, ele mandou uma banana para as câmeras e discursou: "Não foi agora, mas fomos representados e nossa comunidade teve visibilidade".

A praça ganhou uma "área VIP" para a festa. Refrigerada e protegida da chuva, a sala improvisada numa quadra de futebol não atraiu muita gente no início da festa organizada para acompanhar a entrega do Oscar. Catadores que participaram do filme Lixo Extraordinário e seus parentes foram convidados pelos patrocinadores para o coquetel reservado, mas muitos preferiram a companhia de moradores e colegas de trabalho.

A praça ficou lotada. Havia cerca de 2 mil pessoas. A apresentação de percussionistas do Afro Reggae começou pontualmente às 19 horas, debaixo de chuva. Em vídeo gravado, antes da exibição do filme no telão, o protagonista do documentário mandou uma mensagem de Los Angeles: "Esse momento não é do Tião. Não é dos catadores de Gramacho. É de toda a nossa categoria."

A mãe de Tião Santos, Gerusa, de 63 anos, chegou às 20 horas, chorando. A pressão subiu, e ela precisou ser amparada por amigos e parentes; foi levada para a sala refrigerada. Um dos parentes comentou que o melhor era "ficar junto da galera". Leide Laurentina da Silva, de 62 anos, a Irmã, uma das retratadas por Vik Muniz, disse torcer para que a indicação do filme para o Oscar resulte em ajuda para os catadores. "Já criei 3 filhos, 4 netos e estou criando 2 bisnetos." Ela contou ter recebido R$ 10 mil pela venda de um quadro há alguns anos. Leide disse que fica com vergonha quando aparece na tela. "Das outras partes, gosto muito."

Durante a festa, houve sorteio de Kits da Natura. A catadora Ana Carla Nistaldo, de 35 anos, ganhou um filtro solar, um batom, uma sombra e um gloss. "A gente é esquecido. O Oscar ajuda muito", disse ela, que tem 4 filhos e trabalha há 16 anos na "rampa" (lixão).

Irmã de Tião e diretora financeira da Associação dos Catadores de Material Reciclável de Jardim Gramacho, Glória Cristina dos Santos, de 35 anos, estava empolgada com as oportunidades que, diz ela, a visibilidade trazida pela indicação do documentário poderá trazer para o pessoal que trabalha no lixão, que tem 1,3 milhão de metros quadrados e recebe 9 mil toneladas de lixo por dia do Rio e de mais 4 cidades da região metropolitana.

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