Uma narrativa que se move pelo embate

Em Retratos Imorais, livro de Ronaldo Correia de Brito que desafia a barreira dos gêneros, o confronto abate o conforto

Ricardo Lísias, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2010 | 00h00

Retratos Imorais é um bom resumo das questões que Ronaldo Correia de Brito vem tratando em seus livros. A princípio, os 22 textos causam algum estranhamento pela falta de unidade, que chega a dificultar até a identificação de um gênero: embora não seja um romance, o volume não combina com a definição clássica de uma reunião de contos.

Essa confusão anuncia o desconforto que salta de cada uma das páginas. Não se trata de leitura fácil e nada do que o livro anuncia é ameno. O texto inicial, uma briga entre duas mulheres, prega uma cilada ao apresentar uma conclusão exatamente como a que o leitor espera. A previsibilidade é traída páginas à frente quando um estrangeiro tenta colocar o maracatu, a dança típica, em alguma categoria conhecida. Não dá certo.

A partir de então, qualquer compreensão lógica e imediata dos textos vai sempre sendo afastada por sucessivos desarranjos. Em uma despedida, os afetos não se completam, o tédio se encerra com um ruído violento e abrupto e o cotidiano médico em vez da cura anuncia uma doença ainda mais grave. Os enredos são carregados de dor.

Galiléia, o notável romance do autor, já não oferecia qualquer segurança para o leitor. Em Retratos Imorais, mesmo as epifanias tão presentes no romance acabam mais econômicas, dando lugar a um gritante sentimento de deriva. As personagens quase sempre estão em trânsito, o que combina com a dificuldade que o leitor sente para obter uma compreensão mais direta.

O projeto literário do autor pretende justamente mostrar como a literatura exige um grau de dificuldade condizente com a vida contemporânea. De início, o leitor pode se sentir repelido, já que o texto não utiliza nenhum dos recursos que tornam a leitura agradável e muitas vezes facilitam a recepção imediata de um livro de curto alcance. Aqui, não há lugar para água com açúcar.

Parafraseando Maiakóvski, não é possível uma forma fácil ou agradável para questões difíceis. Se alguns contos, sobretudo o primeiro, começam com clichês, a ideia é logo depois desmontá-los. Em Galiléia, o patriarca que está para morrer reacende uma série de feridas que o tempo teima em não deixar passar. Ampliando de um texto para o livro, e do livro para a obra, surge outra ilusão que o autor desfaz: o tempo não cura nada.

Mas como a literatura, que não é conforto e nem facilidade, ficaria definida para o autor de Retratos Imorais? Entre muitas coisas, ela parece ser uma advertência, nesse momento revoltada contra a superficialidade e se armando para falar da violência contemporânea. Essa é uma função política, além de artística.

Se aceitarmos que o mundo não está bem (eu escrevo 20 dias depois do fuzilamento de 72 pessoas no México...), é claro que a grande literatura, que resiste e oferece um discurso alternativo, não pode enfrentá-lo com uma forma que facilite a leitura ou faça concessões. Seria uma postura reacionária, muito distante da maneira com que Ronaldo Correia age diante da arte.

Há ainda em Retratos Imorais a procura por uma espécie de identidade perdida, e nesse caso eu arriscaria dizer que a literatura, para o autor, é também uma luta contra seus abismos mais íntimos. A última parte do livro, Retratos de Homens, elenca textos cujo fundo é a dificuldade de um homem se encontrar em um mundo convulsionado e a sensação permanente de que não existe mais lugar. Os textos tematizam esse desencontro com humor negro, tragédia e violência. E em todos sobra uma forte sensação de naufrágio.

Entre parênteses, cumpre dizer que não existe o menor traço de regionalismo em Retratos Imorais e talvez, pensando agora a partir desse último livro, em toda a obra de Ronaldo Correia. A principal característica do regionalismo é o espaço geográfico bem definido. E nesses textos não existe nada muito bem estabelecido, nem mesmo o lugar, até porque a maior parte das personagens está em deslocamento.

Por falar um movimento, o radicalismo de Retratos Imorais fica evidente, ainda, na enorme dificuldade que Ronaldo Correia impõe diante do trânsito mais pesado que suas personagens vivem: o caminho para a morte. Nem o que antes seria a nossa única certeza recebe qualquer garantia de ocorrer, como já tinha acontecido em Galiléia.

Por tudo isso, fica claro que Retratos Imorais é um livro de enfrentamento. O autor combate a visão de que a arte pode oferecer conforto e demonstra que o mundo contemporâneo exige confronto e só poderá ser enfrentado com um texto difícil. Nossos problemas não são simples e o autor acerta em cheio ao encará-los com densidade. A violência dos textos parece deixar um recado de fato urgente: a boa literatura é hoje para pessoas fortes. O leitor precisará ser também, se quiser estar na companhia desse grande autor.

RICARDO LÍSIAS É ESCRITOR, AUTOR DE, ENTRE OUTROS, O LIVRO DOS MANDARINS (ALFAGUARA)

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