Uma narrativa para além da realidade

Lançamento, na França,da "quase totalidade" da produção do autor, já visto como uma espécie de Kafka, foi destacado pelo caderno

Gilles Lapouge,

18 Maio 2012 | 19h46

Em 1942, um homem falecia na pequena cidade polonesa de Drohobycz. Chamava-se Bruno Schulz e hoje, com um atraso de vinte anos, um livro seu - quase a totalidade de sua obra - foi traduzido na França sob o título de “Le Traité Des Mannequins”. Para a critica literaria francesa é uma revelação. Desde já ela saúda Schulz como um Kafka polonês.

Na verdade é muito grande a semelhança entre os dois homens. Schulz era também judeu e sua patria era incerta, nos limites da Áustria e da Polonia, como a de Kafka era indecisa, entre a Checoslovaquia e a Alemanha. Num e outro surge, no centro da inspiração, a figura imperiosa e gigantesca do pai. Enfim, as duas obras devem á vigilância de alguns amigos dedicados o fato de não se terem submergido em um esquecimento definitivo.

Aí, entretanto, cessam as analogias. Se Kafka considerava-se um homem de letras e não concebia uma existencia não consagrada á literatura, o mesmo não acontecia com Schulz. Para todos os habitantes de Drohobycz, Schulz não passava do professor de desenho da escola (...) e ninguém suspeitaria que “esse gnomo insignificante, com a cabeça enorme e olhos febris”, era escritor. E, no entanto, á noite, instalava-se á sua mesa de trabalho e redigia longas cartas a um de seus amigos. Essas cartas tomavam, muito naturalmente, a forma de contos fantasticos - esses mesmos contos que hoje compõem o “Traité des Mannequins”.

Na verdade, é menos apropriado falar em contos, no sentido corrente da palavra, do que em descrições da vida quotidiana da pequena cidade. Mas que quotidiano e que cidade! Sob o olhar incansavel do professor de desenho, a realidade parece entrar em transe. A seus olhos, o mundo é instável, sua metamorfose é incessante. A matéria - como mais tarde na “Nausée”, de Sartre, porém com outra qualidade poética - a matéria é dotada de energia própria e inesgotável, prolifera, agita-se, deforma-se, multiplica-se. O narrador sai um dia pelas ruas da cidade, eis que as casas começam a mudar de lugar, cruzamentos ignorados e ruazinhas desconhecidas aparecem, como se houvesse uma superposição dos velhos pianos amarelados da cidade que Schulz apreciava, e este perde-se no centro de uma arquitetura tentacular, com perspectivas vertiginosas, semelhantes a certas gravuras do Piranese. O mesmo acontece com tudo o que Schulz contempla, seja na loja de fazendas de seu pai, os passaros criados no celeiro, uma figura de mulher, ou ainda a rua dos Crocodilos, que abriga ao mesmo tempo os bancos e as casas de tolerancia. Em todas as circunstancias, Schulz procura o reverso das coisas (...). Para ele, o artista é, por tanto, “o grande heresiarca”, o “sedutor e magnetizador formidável”, empenhado numa realidade diversa da quotidiana. Na Polonia, Schulz foi classificado entre os escritores simbolistas e isto é apenas uma aproximação. É mais um escritor da “super-realidade”, no sentido dado por André Breton á procura de uma realidade mais verdadeira que a realidade.

Essa viagem ao tenebroso e indizivel é servida por uma linguagem freqüentemente deslumbrante. Aqui ainda, impõem-se as divergencias entre Schulz e Kafka. Ao estilo difícil e forçado, cerimonioso, voluntariamente esterilizado de Kafka, Schulz responde com uma linguagem poética que não recua perante facilidade alguma nem qualquer beleza. Sua riqueza é quase excessiva. (...)

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