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Milton Hatoum
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Uma mulher durona

Dília Germana, tia Mana, foi a mais durona das mulheres que amuralhavam nossa casa. Ela era casada com o irmão do meu avô, e felizmente não morava conosco, mas participava da nossa vida.

MILTON HATOUM, O Estado de S.Paulo

19 Dezembro 2014 | 02h05

Quando ela visitava o velho sobrado da Joaquim Nabuco, que mais parecia um cortiço familiar, minha avó murmurava um velho ditado, latino e universal: "Cada louco tem sua mania". Depois acrescentava, com pose autoral: "Mas essa tua tia Mana, além de maníaca, é terrível".

Eu, infante mais ou menos feliz, brincava no chão de estrelas da província, e não alcançava o que minha avó queria dizer. Mal a juventude bateu à porta do quarto e da vida, percebi que as palavras da avó faziam algum sentido.

Uma das manias de Mana era dar palpites em tudo. Quando ela entrava na "Parisiense", interferia na arrumação das vitrines e no preço dos tecidos, no salário e na comissão das duas empregadas (ambas parentes próximas), na roupa que cada uma usava e no modo de atender um freguês. Até meu avô - um homem calado que jogava gamão com o marido de Mana - escutava indiretas sobre a situação quase falimentar da loja. Esses jogos aconteciam no começo da tarde, quando todos na "Parisiense" bocejavam de tédio, e a caixa registradora era uma pequena tumba metálica, silenciosa e vazia.

Minha avó achava essa intromissão "Maniana" o cúmulo dos cúmulos, mas evitava discutir com a concunhada, que sempre levava a melhor, pois falava alto e era autoritária ab ovo. Meu tio-avô lançava os dados no tabuleiro, contando com a sorte para ganhar a partida de gamão, pois perdera no jogo do amor.

No fundo, quase todos temiam tia Mana; uns, por covardia; outros, por indolência; e outros ainda, por cansaço antecipado ou orgulho: preferiam concordar com a voz gasguita a discutir na presença de inúmeros parentes, o que seria uma verdadeira humilhação pública.

Só tio Adam, com sua ironia sutilíssima, peitava Dília Germana. Adam me dizia que ela era uma guerreira amazona com dois seios, mas sem montaria. Depois completava: "Ela é o próprio cavalo. E sem rédeas".

Aos domingos, Adam batia continência quando tia Mana entrava em casa acompanhada por uma penca de netos. Mais do que uma visitinha para filar o almoço, era uma invasão domiciliar. Eu os odiava, talvez sem ainda saber o que era o ódio. Em todo caso, sentia aversão a esses netos de Mana, pois saqueavam meu quarto, derrubavam vasos históricos, maltratavam e enlouqueciam o papagaio Bonpland, e, para o meu desespero, devoravam em dez minutos as iguarias que minha veneranda avó libanesa levara dez horas para preparar.

Uma das manias de Mana nesses almoços era implicar com a vida prostibular de tio Ghodor. Tio Adam sempre tomava as dores do irmão; mas minha mãe me dizia que Adam tomava também as namoradas do pobre Ghodor.

Um desses roubos amorosos o próprio Adam contou às gargalhadas na presença de Ghodor e Mana depois de um almoço nada frugal. Ghodor ficou perturbado por ter sido traído pelo próprio irmão. Tia Mana ficou chocada, e naquela hora - que seria o momento sagrado da sesta, e não do incesto - ela passou um sermão em Adam: chamou-o de pecador, lascivo, e ainda culpou minha avó por não ter dado uma educação religiosa ao filho caçula.

Meu avô rompeu o silêncio secular: "Germana, o mais importante é o que ele aprendeu na escola pública. Como é possível dar educação religiosa a nove filhos? Aqui em casa tem tudo: anjo, capeta, arcanjo, querubim, o diabo a quatro... E todos sob esse mesmo teto".

Quando ela se afastou da mesa para pegar a Bíblia e ler um versículo, tio Adam disse: "Não adianta, Mana... Nasci pecador. O pecado está no meu nome".

Então Germana insultou Adam com uma palavra que me soou estranha, uma palavra parecida com "antipático".

Protestei no ato: Tio Adam não é antipático.

"Antipas", gritou Germana. "Menino leso... Não teve educação religiosa".

Repeti baixinho: Antipas, Antipas, enquanto olhava o rosto ensombrecido do meu avô.

Aos 11 anos de idade não conhecia esse terrível personagem bíblico. Desde então, apelidei Adam de tio Antipas.

Hoje, pensando bem, creio que tia Germana tinha alguma razão. Porque Adam-Antipas seduziu outras mulheres da vida do irmão, mas essa já é outra história, e bem mais escabrosa.

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