Uma mórbida complexidade

Mistérios de Lisboa traça painel da Europa do século 19 através de personagens atormentados

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2010 | 00h00

O encontro entre o chileno Raul Ruiz e o português Camilo Castelo Branco não estava escrito nas estrelas. Mas aconteceu e Ruiz levou para a tela o romance oceânico de Camilo, Mistérios de Lisboa. Livro longo, filme comprido: quase quatro horas e meia de projeção que, acredite, não cansa ninguém. Pelo contrário. Quando termina, ficamos com a sensação de que perdemos alguma coisa, que estamos nos despedindo de personagens com os quais gostaríamos de continuar a conviver. Não vemos um filme como este; moramos nele.

Não é a primeira vez que Ruiz enfrenta obra desse porte. Encarou ninguém menos que Proust, mas a verdade é que, dos sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, escolheu apenas o último - O Tempo Redescoberto (Le Temps Retrouvé) - que ele adaptou em "apenas" 162 minutos. Quer dizer, Ruiz não tem receio da duração. Quando a obra pede, ele concede o tempo que for necessário. Mas são durações diferentes. Em Proust, o tempo é a própria matéria sobre a qual a obra reflete, uma construção da memória que, através de personagens, indaga, finalmente, sobre a sua própria natureza.

Em Mistérios de Lisboa, estamos na dimensão mesma dos acontecimentos. O filme dura tanto porque a quantidade de coisas que acontecem assim o exige. A profusão de personagens, as peripécias, as coincidências, a multiplicidade de personalidades contraditórias que se escondem sob uma única máscara - tudo isso pedia um fluir pausado, sem pressa, atento aos detalhes, como a navegação de um rio longo, que se cruza com atenção ao que se passa nas margens.

Inútil dizer que Mistérios de Lisboa é folhetinesco, se a palavra implicar um sentido pejorativo, como se folhetim fosse coisa menor. Porque a obra é mesmo um folhetim. Foi publicada em livro em 1854, quando Camilo tinha 29 anos (é seu segundo romance), mas saíra antes, em capítulos, no jornal O Nacional, do Porto. No dizer de Camilo, ao apresentar sua obra, este não é um romance, mas "um diário de sofrimentos, verídico, autêntico e justificado". Um crítico, Alexandre Cabral, diz, com justeza, que Camilo apaixona-se pela "mórbida complexidade sentimental da humanidade". E, de fato, a história comporta cupidez material, ciúmes, assassinatos, incesto, um mundo bruto, cru, distante da espiritualidade que o romancista iria buscar em outras obras.

Esse frenesi de acontecimentos é o que torna empolgante a trajetória de Pedro da Silva e os desvarios do padre Diniz, esse sacerdote vicioso, que julgava só haver dois lugares no mundo dignos de um homem de verdade - o claustro e a guerra. Não falta também uma condessa ciumenta e ávida por vingança. E nem mesmo um pirata. A ação, que é desenvolvida num longo flash-back, a partir de um manuscrito deixado por um moribundo, se passa em Lisboa, mas também em vários outros países, inclusive o Brasil. É um gigantesco painel do mundo (da Europa, em particular) no século 19, mas em registro pouco realista. E há, sobretudo, este Pedro da Silva (Afonso Pimentel), um personagem em busca de sua própria identidade.

Tudo isso colocado na tela com o rigor conceitual que Raul Ruiz costuma emprestar aos seus filmes, que contêm sempre algo de misterioso, de oculto, como se os personagens, ou melhor, a relação entre eles, não se desse nunca num plano de clareza e racionalidade. Há disso já no folhetim de Camilo. Ruiz realça essa característica com um estilo de filmagem que, em boa parte do tempo, nos evoca o caráter fantasioso de toda recordação - por mais verídica que se proponha a ser. No meio de uma mostra gigantesca, mas formada em boa parte por filmes que acabarão por entrar em cartaz, Mistérios de Lisboa é um dos programas imperdíveis. Ninguém pode ter certeza de ver este filme no circuito comercial. Melhor correr e garantir ingresso.

MISTÉRIOS DE LISBOA

Unibanco Arteplex 1 - Hoje, 16h; quinta, 13h30

Espaço Unibanco Pompeia 1 - Domingo (31), 14h

34ª MOSTRA

Ingressos/ Pacotes:

Permanente integral:

R$ 390; permanente especial: R$ 90; pacote de 40 ingressos: R$ 285; pacote de 20 ingressos: R$ 165

Individuais:

Segunda a quinta: R$ 14

Sexta a domingo: R$ 18

Central da Mostra.

Avenida Paulista, 2.073,

Conjunto Nacional. Funcionamento: das 10h às 21h

Internet:

www.ingresso.com

Programação completa:www.mostra.org

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