Uma missa profana em defesa do homem

Municipal oferece interpretação convincente do Réquiem

O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2011 | 03h07

Na véspera da estreia do Réquiem, de Verdi, o maestro alemão Hans Von Bülow, de passagem por Milão, deu uma olhada na partitura e não poupou ironias ao comentá-la. "Verdi acaba de escrever mais uma ópera, ainda que travestida de caráter eclesiástico." Pouco depois, Johannes Brahms, seu amigo de longa data, ouviu a obra - e não se conteve. "Desta vez, meu caro Von Bülow fez papel de bobo."

O encanto de Brahms com a peça de Verdi, estreada em 1874, é compreensível. Anos antes, em 1868, ele havia composto o seu próprio Réquiem Alemão. O texto unia passagens da tradição católica com outras, escritas ou selecionadas pelo compositor, que a subvertiam. Brahms rechaçava qualquer doutrina religiosa - e, nos textos que inclui no Réquiem, questiona tanto a ideia de Cristo como redentor quanto a crença de que apenas uma vida de correção, livre do pecado, daria ao homem o direito à vida eterna.

Verdi, por sua vez, era ateu e agnóstico; não apenas não acreditava em Deus como também em nada que não caísse sob o domínio dos sentidos. Ao contrário de Brahms, segue à risca, em seu Réquiem, o texto latino da missa católica. Mas, na forma musical, estabelece o diálogo com o profano e, como Brahms, faz da sua peça uma ode não a Deus mas, sim, ao ser humano que se vê em conflito com a presença da divindade que, com a imagem do pecado e a necessidade do perdão na hora da morte, tolhe do homem aquilo que mais o define, a liberdade.

Von Bülow estava correto em sua avaliação. O Réquiem de Verdi é de fato operístico. Mas a mistura de linguagens é justamente o que o torna fascinante. A ópera é o espaço dos sentidos exacerbados, do conflito - e o homem que ela retrata seria homem do pecado, que acredita no desejo e guia suas ações segundo ele. Assim, dramatizar o texto da missa, como faz Verdi, ainda que indiretamente, é assumir a figura do humano como protagonista no embate com o criador.

Na interpretação da peça, no domingo à tarde no Teatro Municipal, o maestro Abel Rocha ofereceu uma leitura fluente do Réquiem, pontuada por passagens inspiradas, como a sequência inicial, o Lacrymosa ou o Libera Me, do qual a entrada equivocada não tirou o brilho - um pequeno esbarrão em uma interpretação convincente, atenta às dinâmicas, equilibrada na junção dos naipes da Sinfônica Municipal (em belo desempenho), e da força vocal do Coral Lírico Municipal e do Coral Paulistano.

Entre os solistas, todos italianos, destaque para a soprano Carmen Giannattasio, de voz expressiva dos graves aos agudos, muito musical na construção das linhas melódicas, e para a meio-soprano Tiziana Carraro. Já o tenor Cristiano Cremonini, apesar do belo timbre, é inexpressivo e de impostação insegura; e o baixo Riccardo Ferrari abusa de um vibrato incômodo, que leva a uma afinação nem sempre precisa.

Crítica: João Luiz Sampaio

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