Uma mineirice sem pudor

Bernstein ama as histórias verdadeiras, os personagens autênticos. Ele torna o pequeno mundo de Zezé palpável

O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2013 | 02h11

Houve um momento em que Meu Pé de Laranja Lima ia ser feito em coprodução com a Franca. Os franceses estavam colocando um bom dinheiro, mas a parceria dependia da contrapartida brasileira, que nunca saiu. Foi difícil captar para fazer este filme. Naquele tempo, Marcos Bernstein podia comparar seu filme sonhado a A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese, mas não era para se vangloriar (o dele é melhor). Não era só a questão da infância, eram os efeitos. Sem dinheiro, Bernstein desistiu dos efeitos à Hugo Cabret. Concentrou-se no bom e velho Georges Méliès, com seu efeitos primitivos. Foi melhor para seu filme.

Como diretor e roteirista, Bernstein ama as histórias verdadeiras, os personagens autênticos. Ele torna o pequeno mundo de Zezé palpável. O elenco ajuda - a mãe, a árvore, a incompreensão de todos pela fuga da realidade, por meio das conversas com a árvore. Só quem entende Zezé é o Portuga. Sua perda representará, para o garoto, a entrada na idade adulta. Laranja Lima, o filme, poderá, eventualmente, ser atraente para as crianças. O livro chegou a ser adotado como material escolar em alguns países. Mais do que para crianças, é sobre a infância.

Nesse sentido, lembra o primeiro Menino Maluquinho, adaptado por Helvécio Ratton do personagem de Ziraldo, que teve seu público infantil, mas seduziu (e muito) os adultos. A mesma mineiridade - Bernstein filmou em Cataguases -, o mesmo pudor. O filme é sobre a imaginação, como força motriz, que Zezé carrega para a vida adulta, tornando-se autor. Tudo faz parte de uma experiência - do menino, compartilhada pelo espectador. Como fazer de um pequeno mundo algo épico? Bernstein filma com economia. Dispõe de um elenco privilegiado. Em setembro/outubro, quando Laranja Lima integrou a Première Brasil no Festival do Rio, José de Abreu, o Portuga, já havia estourado na novela Avenida Brasil, da Globo. Seria, ou era, o melhor ator, o melhor coadjuvante, o que o júri quisesse, mas o júri preferiu ignorar o filme. Ignorou João Guilherme Ávila, o Zezé. Não faca isso. Mais que ao filme, dê a você a chance de gostar de Laranja Lima.

Crítica: Luiz Carlos Merten

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