Uma mandala para Assis

Denise Milan inaugura obra pública na cidade italiana

LAURA GREENHALGH, O Estado de S.Paulo

01 Setembro 2013 | 02h22

Quando nada mais se imaginava incorporar ao patrimônio cultural da italiana Assis (ou Assisi para os da terra), berço da arte renascentista, eis que uma boa-nova é anunciada pela prefeitura local, dando destaque a uma grife brasileira. A partir deste mês, a Piazza Santa Maria degli Angeli, ponto privilegiado do centro histórico, abrigará em caráter definitivo a Mandala de Pedra, oitava obra pública da paulistana Denise Milan. Doada pelo Fetzer Institute, de Chicago, a escultura fez parte de uma instalação da artista para Assis, sobre tema que é a própria missão da entidade americana: Loving and Forgiveness (Amor e Perdão).

A obra nasce como parte do projeto A Global Gathering, em que o Fetzer junta 500 líderes mundiais - entre eles, a artista - para pensar os caminhos de uma sociedade com mais entendimento e sustentabilidade. Denise concebeu sua obra como um instrumento de navegação da Terra no sistema solar, sob a forma de uma mandala com 2,6 metros de diâmetro. E mais uma vez articula a sintaxe das pedras, foco de seu interesse há três décadas: no caso específico, foi atrás do calcário branco e rosa da Umbria, presente nos sítios arqueológicos da região.

Com autorização para captar matéria-prima apenas em uma área determinada, a artista fez com que esse calcário fosse cortado em centenas de peças por artesãos locais, depois dispostas segundo desenho que converge para o centro, onde então instala uma esférica sodalita brasileira. É a sua pequena Terra Azul. "Ao conectar mandala e Terra, vou lidando com a memória geológica, mas de olho no futuro", explica Denise, hoje não só reconhecida por suas esculturas e fotocolagens, mas pela liderança que exerce na fronteira da Arte Pública.

Trabalhos seus estão incorporados à paisagem urbana de várias cidades brasileiras - Drusa, no Vale do Anhangabaú (SP), Améfrica, no Jardim de Esculturas do Centro Cultural Banco do Brasil em Brasília, ou Redenção do Pelourinho, em Salvador. E no exterior - como é o caso de America's Courtyard, no Adler Planetarium, em Chicago. Para a artista, a ars publica não se limita a revitalizar e humanizar espaços coletivos, mas reinterpreta rituais da vida, alcançando até o sagrado.

O convite para expor na cidade dos afrescos de Cimabue e Giotto, formalizado pelo Fetzer em 2011, veio na sequência da repercussão da obra para o planetário americano. Já em Assis, Denise realiza um trabalho que vai além da formulação estética sobre dois sentimentos, amor e perdão, tratando-os na verdade como duas éticas de vida, um tanto quanto escassas nos dias de hoje.

Inspirou-se em personagens fortes tanto do ponto de vista histórico quanto sacro: São Francisco e Santa Clara. E jamais poderia supor que um jesuíta surgiria no cenário mundial em 2013, recolocando os valores do franciscanismo em foco (por pura coincidência, o papa Francisco visitará Assis nos próximos dias, já com a Mandala da Terra instalada nas ruas). "Retomo a vida de Francisco e Clara ao expressar que o ser humano deve ser o protetor e, ao mesmo tempo, o beneficiário da Natureza", justifica, inspirando-se também no "círculo de compaixão entre os vivos", ideia de que falava Einstein.

Aprovado o projeto, Denise saiu em busca das pedras da instalação "e o incrível foi pesquisar todos aqueles lugares pelos quais Francisco e Clara passaram em suas andanças". Entre estes lugares estava o célebre Monte Subasio, onde o santo mendicante costumava passar longos períodos em meditação. Enquanto peregrinava para coletar pedras, Denise tinha a seu lado uma família de artesãos locais, gente acostumada a cortar o calcário seguindo técnica passada de pai para filho, por séculos.

Mandala da Terra foi vista pela primeira vez como parte da instalação armada no Palazzo Del Monte Frumentario, em 2012, durante evento do Fetzer. Ali, Denise alinhou a mandala a uma estrela também armada sobre o chão, e estas, por sua vez, foram alinhadas a um geodo de quartzo deixado em suspenso numa das janelas do palácio. Como num movimento contínuo, a artista apontou os três elementos em direção ao Subásio, que justamente é visto da janela. Assim, do chão ao monte, em estágios, criou a metáfora do destino humano, sempre em busca de sua superação. A instalação seria desfeita tempos depois, mas a mandala fica de vez em Assis.

Denise Milan lida com pedras como quem articula uma linguagem universal, "vale lembrar que o cristal de quartzo está presente em mais de 90% da crosta terrestre, o que faz dele um bem coletivo, uma língua comum a nosso dispor". Seu trabalho deu origem a performances marcantes - entre elas, a Ópera das Pedras, concepção multimídia levada ao palco pelo Sesc, com participação de Naná Vasconcelos, Badi Assad e Andre Mehmari; e o Espetáculo da Terra, com crianças e adolescentes de comunidades carentes de São Paulo (em lugares como Heliópolis, Jaguaré, Grajaú). Nesse espetáculo, envolve arte-educadores e leva para as ruas os Cortejos de Vidas Preciosas, em que os participantes passam por todo um processo (artístico) de valorização das próprias existências. Sua obra também já deu origem a vários livros, entre eles Cadumbra, em parceria com Haroldo de Campos. Num dos seus metapoemas, Campos sintetiza e define o incessante movimento de busca da artista, diante da matéria aparentemente inerte: "A pedra despedra da pedra".

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