Uma liturgia de vingança e redenção

Grupo Kaus, que valoriza a dramaturgia latina, agora encena O Grande Cerimonial, de Fernando Arrabal

Crítica: Jefferson Del Rios, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2010 | 00h00

Um homem cercado de bonecas do tamanho de mulheres adultas realiza com elas rituais de sedução e massacre. O corcunda Cavanosa, que se imagina horrível, as ama e as odeia ao mesmo tempo, e planeja matá-las por serem projeções de sua mãe tirânica. Só o amor de uma jovem, que desconhece o mal e a feiura, poderá redimi-lo; e ela vai aparecer.

Essa história pode ser um delírio psicótico ou um episódio sexual. O Grande Cerimonial, de Fernando Arrabal, pelo Teatro Kaus, dirigido por Reginaldo Nascimento, oferece ambas as possibilidades e algo mais. Se parece assunto improvável, recorde-se que o autor, um dos últimos surrealistas influenciados diretamente por André Breton, não teme o contraditório e permanece fiel às fantasias de amor e ódio entre mãe e filho e à expiação desses sentimentos.

Tesouros. Vamos ouvi-lo: "Creio que quando se vê uma cerimônia no teatro - grotesca ou não - ela ilumina nossos tesouros mais secretos. Seremos felizes se pudermos achar belo o que é obscuro, porque nesse instante o destruiremos. É a maior tomada de consciência. É preciso dizer o que não se ousa dizer."

Por um caminho bem particular, Arrabal junta suas antevisões freudianas à tradição espanhola do grotesco artístico. Pode-se assistir à peça só desse ângulo, embora seja oportuno conhecer o substrato político e cultural que a motivou. O artista fez dos traumas que a ditadura do general Franco (1939-1975) e a intolerância de um catolicismo medieval lhe impuseram os temas de um acerto de contas com as várias formas, dissimuladas ou explícitas, de opressão familiar, religiosa e ideológica. Com um estilo desarmado, como um lamento infantil, constrói tramas que ecoam a perversidade latente nas pregações salvacionistas, seja da sua mãe real, obcecada na fé, ou o general Milan Astray que teria bradado "Viva la muerte!" em defesa do fascismo que sufocou a Espanha (e matou o pai do dramaturgo, preso e desaparecido em episódio nebuloso).

Fantasmas. O período histórico negro passou, mas o tempo emocional continua a latejar neste teatro. Mesmo sendo escritor consagrado, com novos horizontes e interesses, quando Arrabal retoma a escrita, os velhos fantasmas estão lá: em 1986 escreveu o romance, A Virgem Vermelha sobre a mulher que decide ter um filho de pai ocasional. Anos mais tarde será morta a tiros pelo rebento. A seguir, em 1999, lançou Cartas de Amor, monólogo da senhora que relembra, tardiamente emocionada, a correspondência com o filho distante, o que pode ser apenas sua imaginação.

Na atual versão de O Grande Cerimonial, Reginaldo Nascimento trata os personagens como marionetes de gestos mecânicos e fragmentados, o que evita a abordagem realista e psicológica da peça. Há sequências que lembram balé e os giros lentos das figuras de caixinhas de música. Há uma misteriosa expressividade nessas cenas que se congelam.

Percebem-se ali as linhas gerais do expressionismo cinematográfico alemão, sobretudo no desempenho de Peter Lorre em M (ou Vampiro de Dusseldorf) no Cavanosa que Alessandro Hernandez interpreta com brilhantes nuances de angústia e solidão.

Em sentido oposto, está a ternura frágil que Amália Pereira confere à donzela redentora com aqueles olhares de Giulietta Masina em Noites de Cabíria, de Fellini. O mundo fechado de Arrabal é completado pela mãe voraz à qual Deborah Scavone, com voz potente, confere um misto de caricatura e agressividade, e o amante, papel mais episódico, que Alessandro Hanel consegue realçar em breves intervenções.

A companhia. O cinema é apenas referência, porque a marca autoral do diretor é firme na valorização da dramaturgia latino-americana e ibérica desde a fundação do Kaus em 1989. Resultado de persistência e amadurecimento, O Grande Cerimonial terá melhores resultados em um espaço mais favorável aos intérpretes, cenário e iluminação. Fernando Arrabal, que esteve em São Paulo em agosto de 2009 em apoio ao grupo, certamente aprova esse gesto de fantasia e imaginação sem medo.

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