Uma literatura do enclave

Choque entre culturas marca a produção do escritor, que viveu em vários países

LEDA TENÓRIO DA MOTTA É PROFESSORA DA PUC-SP, AUTORA DE PROUST - A VIOLÊNCIA SUTIL DO RISO (PERSPECTIVA), ENTRE OUTROS LIVROS, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2012 | 03h09

LEDA TENÓRIO DA MOTTA

Desde que, em 2008, Le Clézio tornou-se um Nobel de Literatura, nós o temos visto sair da sombra para ser festejado como um autor "da partida". E, assim ,também da "ruptura", da "aventura", da "exploração". Tudo junto: como um excêntrico capaz de ir além da "civilização reinante". O que se entende, já que tudo o que mais lhe diz respeito é um trânsito infinito entre lugares.

Ele parece ter sido destinado a isso. Nascido em Nice, viveu nas Ilhas Maurício, de língua francesa e inglesa - e de tantas culturas. Mas seu próprio mundo infantil estrangeiro se dividiu: o pai, médico, teve que permanecer no posto, na Nigéria, para onde se transferira, quando, durante a Segunda Guerra Mundial, a mãe seguiu com os filhos para Nice. Mas mãe e filhos voltariam à Nigéria, onde ele viveu ainda, em menino, antes de regressar à França. Para continuar não pertencendo completamente ao mundo habitado, até porque os pais, primos, são bretãos - e o bretão, como se sabe, é sempre um pouco o "outro", em Paris.

Certamente, todos esses são dados biográficos interessantes, de que se poderia deduzir os universos distantes das ficções que o futuro autor escreveria, os quadros de referência de seus ensaios literários, sempre em torno de choques de cultura e culturas perdidas. E certamente todos esses movimentos não podem não ter a ver com a fixação do futuro prosador nas mitologias indígenas norte-americanas, o que não deixa de vinculá-lo a Antonin Artaud, estudioso do México, assim como suas futuras estações em diferentes países o ligam à tradição de modernos viajantes da revolta, que vai de Rimbaud a André Gide.

Mas nada disso pode ser verdadeiramente esclarecedor a respeito deste imenso escritor, de títulos movidos a significantes como "deserto", "iceberg", "cidades santas", "procura do ouro", "sonho mexicano", que trazem as marcas de um animal dos grandes espaços. Pelo simples fato de que são explicações contextuais, externas, professorais no mau sentido. Daí talvez sua prosperidade na Wikipédia, onde vamos encontrá-las juntamente com toda a sarabanda de clichês acima. São motivos que podem ter sido decisivos em Estocolmo, onde as escolhas literárias, ao contrário do que acontece com as científicas, costumam ser de índole geopolítica. Mas deve haver melhores pistas para o estranhamento da pessoa e da escritura de Le Clézio. E a qualidade de seu dépaysement - como diria Baudelaire - merece mais.

Uma dessas pistas pode ser aquela aberta por Sartre a propósito de Flaubert, este outro filho de médico que tanto estranhou a França. De acordo com o filósofo, toda a grandeza do autor de Madame Bovary estaria em ter escolhido o destino que lhe foi imposto. Isto é, em ter assumido o "idiota da família" que pareceu ser aos olhos de seu pai, ao fracassar na escola. O que lhe valeu poder ver por si só e lhe permitiu demolir seu século. Ora, se aplicarmos as mesmas lentes à leitura de Le Clézio, todo o seu interesse poderá deixar de ser depositado no tipo de vida que lhe foi dado levar, ou num determinismo existencial, muito ao gosto dos manuais que explicam a literatura pelo clima, para ser buscado na beleza do gesto que o faz assumir a responsabilidade pelo acaso, tornando-se um perfeito gentio.

Mas os interessados em ir além da internet talvez possam tirar proveito de uma segunda pista: a kafkiana. Não porque Kafka tenha uma conhecida personagem que vai à América, onde Le Clézio lecionou e passa hoje parte de seu tempo Mesmo porque, entre os escritores que dão a volta ao mundo em 80 dias e os escritores que dão a volta ao dia em 80 mundos, Kafka está muito mais entre os últimos. Mas porque os bons conhecedores deste outro escritor imenso nos dizem que o fato de ter vivido entre a cultura judaica, a germânica e a eslava, mergulhado no iídiche e no alemão, foi o que armou Kafka para ser Kafka. Isto é, o que o dotou daquela sua sensibilidade única para o absurdo. A vantagem de pensar a obra de Le Clézio dentro desta outra linha de reflexão é que o que sai assim valorizado não é a multiplicidade ou a suposta riqueza de suas experiências do estrangeiro mas, ao contrário, a exiguidade de seu espaço, que é o enclave.

São deslocamentos sutis que nos deixam apreciar pelo lado de dentro esta grave figura de artista retirado em si, cujo sucesso em Estocolmo até nos surpreende.

OUTROS NOMES

O português José

Luis Peixoto também confirmou sua presença na Flip, que já conta com nomes como o poeta árabe Adonis e o norte-americano Jonathan Franzen, entre outros. A 10ª edição vai ser aberta no dia 4 de julho com uma palestra de Silviano Santiago sobre o homenageado, Carlos Drummond de Andrade.

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