Uma leve lição moral contra o assédio

Os filhos de Julianne Moore, Caleb e Liv Helen, frequentam uma escola Quaker - e uma das primeiras lições que uma criança dessa comunidade protestante aprende é que deve ajudar seus semelhantes. Pensando nisso, a atriz percebeu que escrever um livro poderia ser uma forma de seguir esse mandamento religioso, levando ao mesmo tempo uma mensagem de tolerância às crianças. Assim, a história que conta em Morango Sardento é uma lição moral sobre o assédio e o respeito à diferença. A garotinha de 7 anos que tem vergonha das suas sardas sabe que é diferente dos amiguinhos e, portanto, deseja ser igual a eles. Como isso parece impossível, usa um capuz para ficar anônima. Mas a máscara da neutralidade é impossível numa sociedade que força um comportamento uniformizado e abomina a diferença. Só quando cresce, como diz Julianne no livro, é que a criança descobre que tanto faz. Não se muda o que se é - o que equivale a repetir o velho refrão da fábula de Esopo sobre o escorpião que queria chegar à outra margem do rio e promete à rã caroneira não usar seu veneno. Claro que ele o faz, porque, afinal, é a sua natureza.

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2010 | 00h00

A garotinha bem que tenta se livrar do ferrão - das sardas - usando um bom esfregão e suco de limão, mas elas não saem da face. O jeito é escondê-las. Com o rosto coberto por um capuz, ela vai à escola e não é reconhecida pelos coleguinhas. Logo, fica isolada num banco do parquinho, onde um bebê se aproxima e tenta tirar aquela máscara de tricô que esconde seu rosto. Chega a mãe do nenê, uma menina, e, percebendo a irritação da protagonista quando tira o capuz, explica que a filha acha graça das sardas - o que deixa Morango Sardento ainda mais irritada. Ela só se acalma quando a jovem senhora jura que também teve sardas quando criança e que elas desapareceram com o tempo.

É o conto moral que se espera de uma atriz cuja carreira é marcada por papéis de mulheres fortes ao lado de seres discriminados. Mas Julianne Moore não se sentiu satisfeita. No ano passado, lançou nos EUA a sequência do livro, Morango Sardento e O Valentão do Recreio. Nele, a frágil e baixinha protagonista enfrenta um garoto três vezes maior que ela e com uma mania terrível: atingir o corpo dos coleguinhas no jogo de queimada até ver lágrimas nos olhos de suas vítimas. Ao forjar ser tão monstruosa como o agressor, Morango percebe que ele se amedronta. Generosa, pede desculpas. No dia seguinte, os dois viram amigos e brincam no parque.

Alguns leitores americanos não engoliram o epílogo edificante. Disseram que seria até aceitável a tolerância mútua, mas brincar juntos é outra história. Afinal, o bullying na escola é traumático demais para ser resolvido na base do perdão. Julianne Moore diz que não, que é preciso entender as motivações do agressor. E é fácil descobri-las. Vivemos numa sociedade competitiva, paranoica, agressiva e uniformizadora que é um espelho para as crianças. Distorcido, diga-se.

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