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Uma jornada em busca do saber

'The Rake's Progress', de Stravinski, abre temporada lírica do Municipal

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2013 | 02h10

Foi uma récita atípica. Enquanto, no palco, o personagem Tom Rakewell seguia em sua rota de autodestruição, do lado de fora a fachada do Teatro Municipal era atacada por manifestantes encapuzados, que pichavam as paredes e investiam contra as portas e janelas na noite de terça. Ao longo do primeiro ato, era possível ouvir estouros lá fora. O clima nos bastidores era de apreensão. No intervalo, o público, que observava das janelas a correria e as fogueiras na Rua Xavier de Toledo, foi orientado a não deixar o teatro. O maestro Jamil Maluf subiu ao palco: se fosse necessário, um esquema de segurança permitiria a saída do público ao fim da récita. Mas a apresentação continuaria - a arte, naquele momento, seria o abrigo contra o caos. Muitos aplausos.

Tom Rakewell é o protagonista de The Rake's Progress, ópera de Igor Stravinski com que o Municipal abriu sua temporada lírica. Nela, o jovem deixa a propriedade no campo em que conhece e se apaixona pela inocente Anne e parte, orientado pela sombria figura de Nick Shadow, para Londres. É lá que vai se afastar do amor da juventude e envolver-se em uma sociedade que preza o excesso, a riqueza e o interesse acima de tudo. E é lá também que, confrontado com a figura diabólica de Shadow, consegue se livrar do contrato que exige entregar a ele sua alma. O amor, ou a memória dele, o salva do acordo.

Há, em The Rake's Progress, uma ironia fina no modo como é retratada a jornada do personagem. As possibilidades do texto de W.H. Auden e Chester Kallman se multiplicam na escrita musical de Stravinski - e momentos de lirismo, como a saudade apaixonada de Anne, convivem com outros de puro sarcasmo, como o jocoso minueto em que os internos de um hospício cantam a vida na "caverna dos mortos". A forma dialoga com o conteúdo - e um perverte e relativiza o outro a todo instante.

E, em meio isso, Tom segue em uma trajetória que, para o diretor Jorge Takla, é de autoconhecimento - o mal encarnado em Nick Shadow, o amor puro de Anne, os valores da sociedade sugeridos por Trulove, a riqueza excessiva e vazia de Baba, a Turca: todos esses elementos existiriam dentro do próprio Tom, de cada um de nós. E o que seria a vida senão a jornada em que se busca um equilíbrio entre tudo aquilo que nos define - medos, desejos, o que é real, o que é fantasioso, sonhos? "Os sonhos podem mentir, mas sonhe", diz Shadow no fim da segunda cena do primeiro ato. E completa: "Pois, quando acordar, morrerá".

A montagem de Takla trabalha em dois níveis. De um lado, há a leitura simbólica, em que bailarinos vestidos como o casal protagonista se multiplicam pelo palco, sugerindo justamente o fato de que não há apenas um Tom ou uma Anne, mas, sim, um conjunto de experiências, projeções e identidades que os formam. De outro, uma recriação quase farsesca da história, que se percebe na caracterização dos personagens ou no trabalho de figurantes que ajudam, com cartazes, a contextualizar o enredo.

O problema - ou talvez seja esta a intenção do diretor - é que nem sempre essas duas leituras dialogam em harmonia. E, em uma cena como a do cemitério, por exemplo, em que Tom tenta se livrar do contrato com Shadow, a presença de Anne como uma espécie de enfermeira do amor, enfraquece o fato de que, ao se lembrar da amante da juventude, o personagem está, na verdade, buscando dentro de si a resposta para o dilema que a trajetória de vida por ele escolhida impõe.

Musicalmente, a Orquestra Experimental de Repertório ultrapassou com maturidade, sob o comando seguro de Jamil Maluf, as dificuldades de uma partitura que, a cada instante, exige um tipo diferente de leitura, da fanfarra inicial a passagens de tons camerísticos, nas quais solistas como a soprano Rosana Lamosa (Anne) e o tenor Chad Shelton (Rake) tiveram seu melhor desempenho. Entre os cantores, no entanto, o destaque foi para o baixo Sávio Sperandio, como Shadow; para a mezzo-soprano Sílvia Tessuto, como Baba, em especial no breve e delicado diálogo com Anne na primeira cena do terceiro ato; e para o Trulove do baixo Saulo Javan. Adriana Clis, como Mamãe Gansa, e André Vidal, como o impagável leiloeiro, contribuíram ao tom humorístico do espetáculo.

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