Uma inspirada reciclagem musical

Reciclagem é palavra da moda. Pois o concerto para violino e orquestra do norte-americano John Adams é justamente isso: genial reciclagem musical.

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2010 | 00h00

Minimalista de segunda geração, ele passeia pelo jardim da história da música como se estivesse passeando no Google. Cata no verbete "chacona" do dicionário "Grove" de música o exemplo de progressão harmônica básica mais clichê desta dança barroca. Depois, ideias rítmicas de seu contemporâneo Colon Nancarrow; e retorna ao século 18 adotando a fórmula do concerto tripartite em rápido-lento-rápido.

Com a frasqueira cheia de tranqueiras do passado e do presente, ele conseguiu fugir do pastiche. Construiu um admirável concerto que exige muito do solista. À orquestra cabem camadas sutilmente transformadas, seja rítmica, seja harmonicamente, formando um colchão instável sobre o qual o violino da excepcional Leila Josefowicz jamais para de evoluir numa espécie de "melodia infinita" (a expressão é do próprio John Adams). Mais: o violino brinca com os tempos, enfrentando a orquestra.

Aos 63 anos, Adams é o mais tocado e importante compositor contemporâneo nos EUA. Este concerto, por exemplo, estreado em 1993, já estava no repertório de 12 violinistas de primeiro time apenas três anos depois.

Sua linguagem musical acessível fez dele o queridinho do público em geral (o da Sala São Paulo, aliás, começou a ouvir desconfiado, mas aos poucos foi seduzido e aplaudiu entusiasmado no final; não é fácil conquistar a atenção da plateia de uma obra nova). Em compensação, a tribo "neue musik" faz questão de desqualificá-lo como autor de "música Harry Potter". Os nomes mudaram, mas a acusação é a mesma de 70 anos atrás, quando Adorno louvava a radicalidade de Schoenberg e acusava Stravinsky de ser um lixão de reciclagens oportunistas. Ambas as tribos esquecem que se houver talento e inteligência os rótulos e receitas soam ridículos. É o caso da música extraordinária de Adams.

O dilema dos compositores de hoje em dia talvez seja o mesmo de Schubert na Viena dos anos 1820. Como compor uma sinfonia fora do guarda-chuva monumental das nove de Beethoven, que também vivia na mesma cidade?

Exuberância. Fabuloso melodista, autor de mais de 600 lieder (canções para piano e voz), construiu sua nona sinfonia expandindo suas incrivelmente belas melodias (ao contrário de Beethoven, que partia de minúsculas células para construir geniais desenvolvimentos temáticos, criando a partir do quase nada). Schumann descobriu o manuscrito numa viagem a Viena em 1839 e promoveu a primeira execução pública da sinfonia por Félix Mendelssohn em Leipzig. Adorava o Andante inicial aberto pelas trompas; dali em diante, cada um dos quatro movimentos é uma exuberância de beleza melódica, pontuada por sutilezas harmônicas (o jogo maior-menor) e dinâmicas.

Foi, aliás, em Schubert que o regente convidado James Gaffigan demonstrou muita segurança e domínio, tanto da sinfonia quanto dos músicos da Osesp. Instrumentos modernos, orquestra grande, típica da segunda metade do século 19, mas articulações precisas, tempos rápidos, frases encurtadas, atenção máxima à exatidão rítmica - tudo isso transformou o que seria uma execução rotineira de uma obra arquiconhecida num evento memorável. Duplamente memorável, aliás, por causa da igualmente extraordinária performance de Leila Josefowicz no concerto de John Adams.

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