Uma inocente matinê de domingo

Uma inocente matinê de domingo

Ainda bem que Hugh Grant e Sarah Jessica Parker não têm lá grandes pretensões com Cadê os Morgans?

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2010 | 00h00

/ LONDRES

A trama é básica. Um casal à beira do divórcio que, na verdade, já vem passando por uma fase de "separação de corpos" e só precisa mesmo assinar os papéis acaba curiosamente forçado a passar mais tempo junto. O diferencial é que o casal se trata de Meryl (Sarah Jessica Parker em um visual Carrie Bradshaw em pleno bad hair day) e Paul (um neurótico Hugh Grant destilando seu humor tipicamente inglês).

Há que se convir que a ideia de Jessica Parker e Grant como um casal é algo de fato inusitado. Só a combinação já garantiria boas risadas nesta comédia romântica que abusa dos lugares comuns para simplesmente fazer rir e divertir a plateia em uma inocente matinê de domingo. "Foi realmente algo que nunca imaginei. Não que não quisesse trabalhar com Sarah, mas sempre a associei a papéis tão mais glamourosos que este", brincou um sorridente Hugh Grant em conversa com jornalistas durante o lançamento mundial de Cadê os Morgans? em dezembro passado. Sarah, que não concordou com o amigo e "marido", rebateu: "Não sou glamourosa. Levo uma vida normal. É fácil me achar em situações em que estou vestindo "roupas de mãe" e brincando com meus filhos. Adoro a vida no campo."

O campo entrou em questão por conta da forma como o casal se junta de novo. A ideia é tão descabida que chega a ser de fato engraçada. Voltando à trama, Meryl e Paul são um típico casal urbano de Nova York que mantém com seus altos salários de corretores de imóveis um estilo de vida totalmente dependente das facilidades da vida moderna como blackberries, computadores, e-mails, TV a cabo etc. Coincidência ou não, vale lembrar que Cadê os Morgans? foi escrito e dirigido por Marc Lawrence. Foi Lawrence que há pouco mais de uma década dirigiu Perdidos em Nova York, uma espécie de Cadê os Morgans? ao contrário, inspirado na peça The Out-of-Towners, de Neil Simon, no qual um casal "caipira" vai parar em Nova York e vive o choque cultural "campo X cidade".

De volta aos Morgans, após um jantar em que Paul tenta convencer Meryl de que o divórcio não é a melhor saída, os dois testemunham um crime e são obrigados a entrar para o Programa de Proteção a Testemunhas. "Às vezes eu adoraria passar por um programa forçado como este. Não que eu seja um coitado que sofre com a fama, mas às vezes é tão bom ser anônimo e não precisar dar entrevistas", brincou Grant, arrancando risadas dos jornalistas que tentavam descobrir se o ator já havia deixado sua fase "mau humorada e deprimida" que o acometera há pouco. "Estou melhorando. Lidar com a fama não é fácil, mas é a escolha que fiz. E hoje certamente sei lidar com a vida pública com muito mais humor e sabedoria", respondeu o ator quando questionado se gostaria de "passar um tempo no anonimato" como seu personagem.

A propósito, o destino seguro a que são enviados os Morgans não poderia ser mais avesso ao modo de vida do casal: Wyoming. Lá, são recebidos por seus "anjos da guarda", o xerife local (um carismático Sam Elliott) e sua esposa (Mary Steenburgen). Em meio à natureza, onde rodeios são o mais importante evento social, telefone celular é artigo raro e o perigo mesmo fica por conta da aparição de ursos ocasionais, Meryl e Paul acabam se reaproximando. Não sem antes protagonizarem cenas como fugir de um urso, cair do cavalo, deslocar um ombro aprendendo a atirar?

As piadas não são lá muito originais. A premissa dos "caipiras da cidade" encararem os "caipiras de fato" também é velha. O pesadelo de viver sem um celular já é clássico. Então, por que se importar com os Morgans? "Acho que o filme tem o que nós sentimos quando estávamos filmando. Foi muito divertido passar, ainda que estivéssemos trabalhando, um período longe de tudo, das revistas de fofoca e tudo mais. Pense em você nesta situação e o filme já terá valido muito", respondeu Grant no melhor humor inglês aos jornalistas que insistiam em querer descobrir o que de diferente ele via em seu novo filme.

Aí é que está. Mesmo que o casal seja uma dupla criticada por muitos pelo fato de "não funcionar", Jessica Parker e Grant têm razão. Não há nada de novo, mas sim de velho e de comédia romântica despretensiosa em Cadê os Morgans?

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