Uma inegostável força renovadora

JERUSA PIRES FERREIRA

JERUSA PIRES FERREIRA É PROFESSORA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO, SEMIÓTICA DA PUC-SP, ONDE DIRIGE O CENTRO DE ESTUDOS DA ORALIDADE, DA ECA-USP, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2012 | 02h10

Uma das figuras mais interessantes da cultura brasileira, seguindo uma certa linha de resistência, de que nos fala o filósofo francês Jean François Lyotard. Poeta, pensador, alguém capaz de gostar ou não gostar, podendo ser amado ou não, mas sempre apto a propor o novo. Também em condições de produzir um certo mal-estar que, no entanto, terminava gerando renovação. Assim era Décio Pignatari, que nos deixa sem nos abandonar. Múltiplo, passando por várias camadas do fazer artístico e da vida. Isso, numa atuação contínua, que visitou desde as poéticas e teorias da comunicação e da cultura - inclusive as do concretismo - até a tradução de obras importantes, chegando ao texto crítico e de experiência (como se lê em Errâncias, Ed. Senac, 1999, um livro notável, nem sempre lembrado) e ao imaginário colorido da boa literatura para jovens (Bili com o Limão; Cosac Naify, 2009).

No 4.º Congresso Internacional da Associação Brasileira de Semiótica, realizado em São Paulo, em maio de 2010, coube a Décio proferir a conferência de encerramento. Tivemos o prazer de recebê-lo e de lhe prestar nossa homenagem, apontando para aspectos relevantes de sua obra. Já vivia momentos difíceis, e numa tirada, revelou que ser consagrado e reconhecido não era estar vivo. Afirmou o fim da poesia atual e recitou ali mesmo um sonoro e notável soneto de Olavo Bilac. Num momento depois, o encontramos solitário na Praça Buenos Aires. Sentou-se no mesmo banco conosco, Lucio Agra e eu. Conversou sobre poesia, manifestou mais uma vez sua descrença na arte do presente e nos recitou Bilac de novo. Nesse mesmo ambiente, repetiríamos a cena em companhia de Boris Schnaiderman. Continuação de uma conversa que não gostaríamos de ter interrompido.

Retomo um tempo mais antigo para lembrar o encontro que tivemos em sua casa e de Lilla, quando da visita do semioticista romeno Salomon Marcus, na década de 90. Ali se deu, como num passe de mágica, uma discussão entre os dois homens empenhados no entendimento das matrizes poéticas. Insistia Marcus na metáfora enquanto matriz da linguagem. Ao que Décio contestava, com a veemência habitual, firmando sua aposta na imagem e no ícone. Esse diálogo repercutiu intensamente em nós, levando a discussões posteriores.

Outro episódio singular. Estava reunida com os alunos na PUC-SP, um território partilhado, quando Décio irrompeu e começou a falar sobre João Cabral de Melo Neto. Na hora, pareceu-nos exagerado. Chego em casa, vou para os livros de João Cabral e minutos depois, já convencida, lhe telefono, dizendo do meu entusiasmo pelos seus achados críticos fulminantes.

Num diálogo que tivemos, ainda na universidade, e em outra ocasião, falei de sua tradução da poeta grega Sapho (31 Poetas, 214 Poemas, Companhia das Letras, 1996) e passei a lhe contar de uma descoberta que eu tinha feito em Ilhéus (BA), e que estava preparando um texto sobre isso. Décio , entusiasmado quando lhe descrevi a beleza da estátua encontrada, me propôs uma atividade peripatética de longa distância: poderíamos alugar um ônibus e ir a Ilhéus com os alunos, fazer um evento de poesia, em torno da escultura. Sua vocação de professor ali se confirmaria da melhor maneira -e alimentei por algum tempo esse projeto.

Ao tentar evocar uma parte de seu legado, duas visitas à nossa casa não poderão ainda passar em branco. Uma, a que nos fez em Salvador, quando hospedado com o generoso Erthos Albino de Souza, admirador e colaborador incansável dos poetas concretos. Levava então para nós toda uma conversação sobre o seu recente livro Panteros (Ed. 34, 1992), Décio perseguia a ideia de um "novo" romance. Ressoavam nele instigações de Umberto Eco e Peirce. E por algumas vezes, tinha se referido a isso. De fato, conseguiu construir o seu texto, com exercícios primorosos de linguagem, imagens, reminiscências.

O outro encontro, anos depois: já instalado no Paraná, ele chegou ao nosso escritório em São Paulo trazendo o incrível ensaio poético e teatral Céu de Lona (Travessa dos Editores, 2004). Em sua dedicatória, falava do traje gráfico e editorial dessa publicação, tão interessante quanto polêmica. Publicado em 2004, o livro é uma joia, contando com belas ilustrações e sob a tutela gráfica da poeta Jussara Salazar.

Em tempos mais recentes, entusiasmou-se pela russa Marina Tsvietáieva (Travessa dos Editores, 2005), a cuja tradução indireta se lançou, e com a mesma paixão que o norteava, em outras medidas e momentos. Como a escuta de ópera ou alguns dos achados que faziam parte de seu grande texto de cultura e vida.

Assim, também não passou em branco quanto ao mundo que pude depois configurar como Cultura das Bordas. Tocou-se pelos filmes de Zé do Caixão, que têm roteiro de Rubens Lucchetti, e chamou esse segmento "Terrerótico".

Falar de Décio é colocar-se diante da atitude de um criador singular, entrar por uma transversalização que impede o congelamento de ideias, avançar por muitas polêmicas, contando com algumas posições agônicas, inquietantes, mas é sobretudo prosseguir junto a um talento e avaliar a garra do poeta que, mesmo ao desistir, não desistiria. Um de seus maiores amigos, parceiro dos projetos de poesia, tecnologia, design e inovação, Augusto de Campos, ao nos falar dele, sempre o colocou como uma inesgotável força renovadora. Percorrendo agora tantas informações, evocando fatos e feitos, entendemos quanto deixamos de observar o que anda perto - e que, aliás, a vida é muito curta para poder de tudo aproveitar.

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