Uma incômoda pergunta

Como pode a arte interessar-se por política se vivemos o tempo no qual pessoas vão a museus como se visitassem catedrais, e sem acreditar em Deus? Abaixo, mais argumento para polêmica

Teixeira Coelho, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2010 | 00h00

Este artista "sempre produziu obras e obras com temas políticos". Aquele "durante um tempo se considerou um agitador político". Um outro "combina temas políticos com a cultura popular". Lendo-se essas descrições tão reais quanto imaginárias da obra de certos artistas, que poderiam ser inúmeros, sobrevém a sensação de que fizeram uma arte política, que ligaram a arte à política ou, como se diz hoje, "ao político", àquilo que de político existe na sociedade.

A verdade é que se a ideia de arte for bem entendida, será preciso alterar a ideia do que é o político - ou que se a ideia de política for bem compreendida, será necessário mudar o entendimento do que é arte. A política é um conjunto ordenado de iniciativas que visam a buscar o consenso de modo a alterar (para melhor) um estado de coisas (a menos que o sujeito dessa oração seja um cínico - ou um realista - como o personagem de O Leopardo, de Lampedusa, para quem é preciso que na política as coisas mudem sempre para que tudo fique sempre como está). Ao passo que a arte, na melhor versão, é instrumento refinado de provocação do dissenso; e, no mínimo, a "iminência de uma revelação que não se produz", como sugere Nestor Canclini, em seu recente e estimulante livro La Sociedad Sin Relato, ao citar Borges, ou a "iminência de começo de mundo" ao lembrar Merleau-Ponty. A política, essa, não pode deter-se na iminência de uma revelação que não se dá, nem na iminência de um mundo (embora aquele mesmo cínico ou realista voltasse para perguntar o que é a política real senão um jogo de iminências que nunca serão?) Entre a poética da iminência e a aspereza insolente da política amplia-se um abismo que a arte não sabe e não quer mais transpor.

E mesmo que a política ultrapasse, por hipótese, a soleira da iminência, como pode a arte ser política se vivemos um tempo em que a religião da arte deixou de existir (sufocada, entre outras, pela criação de Fundos de Investimento para especulação na bolsa da estética) e quando as pessoas vão aos museus e bienais sem mais acreditarem na arte assim como visitam catedrais sem crerem na religião, como sugere Victor Tupitsyn?

Dizê-lo não é diminuir a arte e sua função. A arte ainda "faz sociedade", como lembra Canclini. Mas a sociedade que ela faz é a da irresolução, a da suspensão de toda relação dura entre a intenção da obra e a ação de quem a observa no mundo. Isso não é pouco, num mundo de ideias feitas e sensações pré-armadas. Esse modo de fazer sociedade, porém, nada mais tem a ver com o modelo de política e de arte do século 20, quando a arte se propôs muita vez o papel de explicadora e acionadora do mundo, papel no qual muitos artistas e intelectuais se atolaram irremediavelmente - para não falar dos partidos e das igrejas.

Quando tantas outras instâncias da sociedade não conseguem organizar o consenso transformador próprio da política, por que iria a arte conseguir fazê-lo, por que pedir-lhe que o faça? Basta que consiga realizar o mistério de colocar-nos e ao mundo em estado de iminência. Na Bienal que agora se abre, em uma obra de Nuno Ramos se verão urubus soltos em espaço fechado e que poderão voar sobre torres feitas, se digo bem, de pó queimado, resíduo de algum minério. Não os vi voando, mas imagino e sei que eles me darão a sensação vertiginosa de que algo está a ponto de acontecer. Nada acontecerá salvo o voo e revoo e o descanso desses urubus vigiados pelo Ibama. Mas essa é uma sensação preciosa. A política não tem nada a fazer aqui. E está mais do que bem assim. Se citei Borges, continuo com ele (em diálogo agora com Oswaldo Ferrari): a política corresponde a sonhos que só os políticos sonham (risos dos dois). Com a arte sonhamos ainda todos nós. Muitos de nós.

TEIXEIRA COELHO É PROFESSOR DA ESCOLA DE COMUNICAÇÕES E ARTES DA USP E AUTOR DE HISTÓRIA NATURAL DA DITADURA

(ILUMINURAS), ENTRE OUTROS LIVROS

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