Divulgação
Divulgação

Uma HQ em branco

Graphic novel de Emilio Fraia e DW Ribatski é lançada já com pinta de tornar-se uma das melhores do ano

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2013 | 02h11

A grande história em quadrinhos da temporada "ééééé do Brasil", como diria um ufanista narrador de futebol. E seu ponto de partida é uma espécie de intuição cromática, uma exacerbação das emoções causadas pela cor branca.

O paulistano Emilio Fraia (texto) e o curitibano DW Ribatski (desenhos), ambos de 30 anos, são os construtores da graphic novel Campo em Branco (Quadrinhos na Cia., 176 págs., R$ 55), que tem lançamento hoje, às 19h30, no Espaço Cult (R. Inácio Pereira da Rocha, 400). Suscitando comparações com Rubber Blanket, clássico experimental de David Mazzuchelli, é a união dos quadrinhos de vanguarda com a nova literatura brasileira - Emilio Fraia é escritor, autor do romance O Verão do Chibo, em parceria com Vanessa Barbara (finalista do prêmio São Paulo de Literatura). Em 2012, foi um dos 20 autores selecionados para a edição Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros da revista britânica Granta.

Tipo de "road comic", quadrinhos de estrada, Campo em Branco impressiona pela construção de uma narrativa em que não há quase nada, nenhuma situação ou cenário muito mirabolante. Lucio e seu irmão mais velho, Mirko, são criados separados. O mais velho ganha o mundo, vive em liberdade, experimenta suas visões e aventuras. O mais novo o reencontra após anos em uma cidade estranha, em outro país, outra cultura, outra língua. Quase não reconhece mais o irmão, que, por sua vez, quer levá-lo em busca de alguma experiência de infância.

Para o leitor, há agradáveis possibilidades associativas na leitura: os irmãos de Campo Branco lembram em certa medida os irmãos de Rumble Fish (O Selvagem da Motocicleta); sua saga é um pouco a viagem de Conta Comigo (Stand by me). Há certa ambientação que parece anunciar a qualquer momento o filme Na Natureza Selvagem.

"Sim, tem muito a ver (com 'Rumble Fish'). Pensei também em um filme do Roman Polanski, dos anos 80, Busca Frenética, em que um casal volta a Paris, onde passaram há muitos anos a lua de mel, e assim que entram de novo na cidade, a mulher pergunta: 'Você sabe onde está?'. E o marido: 'Não. Acho que mudou demais'", diz Emilio Fraia, que conta ter se inspirado na literatura de Roberto Bolaño na obra.

"Foi interessante, para mim que nunca tinha feito um trabalho do tipo, ver como os efeitos podem ser criados numa graphic novel. Num romance, para além do enredo, a forma está nas palavras, na maneira como o escritor estrutura a narrativa. Numa graphic novel, essa forma está predominantemente no traço, na disposição e tamanho das imagens, no avançar pelas páginas", conta Fraia.

O visual de DW Ribatski é vertiginoso, embora não utilize a escalada da ação como leitmotiv. Alguns dos seus quadrinhos parecem conter estudos para algo em processo: relógio de Mickey, isqueiros, robôs dos anos 1980, insetos em uma cartolina. Parece a forma de o cartunista lidar com o tempo, elemento fundamental da narrativa. "Acho que tem essa questão do tempo sim, mas tem também uma coisa de querer criar símbolos visuais diversos. O Mickey sempre me lembrará, por exemplo, Walter Benjamin e sua questão de como estes símbolos permeiam o inconsciente coletivo, principalmente depois do século 20", afirma o desenhista.

Os diálogos são construídos graficamente com algum capricho metalinguístico, como nos melhores comics. Por exemplo, quando o gibi narra que "Cabo Bianco fica próximo a um grupo de montanhas chamado Trielak ou algo assim, e o nome Trielak, mal compreendido pelo personagem, surge embaçado e ilegível. "Uma coisa que tínhamos como proposta desse trabalho era criar algo que não fosse 'literatura ilustrada' e nem um storyboard. Usar as possibilidades dos quadrinhos no nível máximo. Neste caso, o texto deixa de ser algo que acompanha o desenho e se torna ele mesmo desenho. 'Isso não é um cachimbo'."

Campo Branco mistura física e road movie, filosofia e trekking. Em dado momento, a página toda é ocupada por um imenso grande quadro negro com equações. "Essa foi uma ideia do Emilio. Fiz vários desenhos até chegar a algo que tivesse essa proporção. Além disso, eu tinha visto uma foto de um artista, que esqueci o nome, que fez num quadro negro imenso, desenhos de diversos tipos de OVNIs, a partir de relatos. Tem também essa coisa de símbolos matemáticos que são bem interessantes", explica o desenhista.

Apesar das referências, Campo em Branco não é jamais pedante ou cifrado. "Os quadrinhos têm essa característica de terem surgido como uma forma de arte mais despretensiosa, vista erroneamente como rasa por alguns. Então tem essa coisa própria da linguagem, num sentido clássico, de trabalhar com símbolos. O uso proposital de clichês também enfatiza isso. Uma coisa meio Duchamp de ser. Mostrar azul e querer dizer branco", afirma Ribatski.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.