Uma homenagem a Grande Otelo na TV

Pode ser que uma coisa não tenhanada a ver com a outra. A TV Cultura e Arte prepara sua grade deprogramação com bastante antecedência. Portanto, a homenagem aGrande Otelo, nesta segunda-feira, já estava prevista muitoantes da última entrega de prêmios da Academia de Hollywood. Masnão deixa de ser significativo que o maior ícone negro do cinemabrasileiro volte à cena justamente após a dupla consagração deHalle Berry e Denzel Washington. A atração que a TV Cultura eArte vai mostrar é o programa de TV do qual o pequeno GrandeOtelo participou, um Vox Populi, na TV Cultura, respondendoa perguntas formuladas pelo público, nas ruas. Trata-se, assim, de dar voz ao próprio Grande Otelo. Asperguntas variam bastante, desde indagações sobre a vocação deator e a saudade do parceiro Oscarito, até outras de conotaçãomais política, que se referem à própria maneira como o cinemabrasileiro enquadrou o personagem negro e de que forma se deu acontribuição de Grande Otelo a essa formulação. Algumas idéiasde Grande Otelo são polêmicas. Isenta-se de responsabilidadequando interpreta personagens de negros que não enriquecem emnada o processo de autovalorização dos homens e das mulheres desua cor. Diz que era funcionário de uma organização (a Globo) edeixa claro que sua maior luta era pela sobrevivência. Grande Otelo nasceu Sebastião Bernardes de Souza Prataem Uberlândia, Minas Gerais, em 1915. Passou a infância em SãoPaulo, mas foi no Rio que fez carreira em shows, cinema, teatroe televisão. Revela que seu maior sucesso foi Macunaíma, deJoaquim Pedro de Andrade, no qual interpretou o herói semcaráter de Mário de Andrade, mas diz que seus filmes preferidossempre foram Amei um Bicheiro, de Jorge Ileli e PauloVanderlei, e Dupla do Barulho, em dupla com Oscarito, naestréia de Carlos Manga na direção. Consagrado pelo elogio de Orson Welles, que o chamou degênio, Grande Otelo morreu em novembro de 1993, ao chegar àFrança para ser homenageado no Festival dos Três Continentes deNantes. Lembra seu mestre, Mesquitinha, que dizia que o atorpode aprimorar-se na escola, mas a arte da representação é umdom e a capacidade de fazer rir e chorar é intrínseca a certaspessoas, não se aprende em nenhum curso de interpretação. Grandeator, muito versátil, ele merece alguns comentários críticos nolivro de João Carlos Rodrigues O Negro Brasileiro e oCinema. O autor discute os arquétipos que o cinema nacionalcriou para filmar o negro. Enquadra Grande Otelo na categoria docrioulo doido. Diz que ele foi o moleque por excelência, pródigoem comicidade, simpatia, ingenuidade e infantilidade. Raramentefoi personagem central. Fez, quase sempre, contraponto ao brancoOscarito. E era assexuado, na tela. Só ganhou uma parceira (VeraRegina) bem mais tarde, nas chanchadas, embora tenha formadodupla até com Josephine Baker no Cassino da Urca. Ainfantilização do sexo fazia de Grande Otelo uma figurainofensiva, ao contrário do Negão, outro arquétipo.Interpretações desse tipo não impedem a constatação de que opequeno (e feio) Otelo faz justiça ao "grande" contido em seunome artístico.Serviço - Grande Otelo. Segunda, às 23h. TV Cultura e Arte

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