Com a emoção mais controlada, a vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante Octavia Spencer, de Histórias Cruzadas, contou que o segredo de sua perfeita interpretação foi não identificar aquele apenas como um papel. "Conversei muito com Viola (Davis) e percebemos que tínhamos de viver realmente o drama daquelas mulheres", disse ela, que lembrou ainda do esforço de seu estúdio, a Disney, de reforçar a propaganda do filme. "É uma história que precisa ser conhecida." Nesse momento, como se lembrasse os momentos passados no palco, Octavia voltou a chorar.

27 Fevereiro 2012 | 03h07

Em situação diversa, o iraniano Asghar Farhadi, que habitualmente esboça nada mais que um ensaio de riso, abriu um enorme sorriso para os fotógrafos, que registraram sua vitória com o Oscar de melhor longa estrangeiro, por A Separação. Ele voltou a repetir o discurso que fez no palco, em que reforçou a importância da cultura de seu país. "Isso é muito importante no momento em que o Irã é lembrado apenas quando o assunto é guerra", disse.

Distante do Kodak Theatre, mas com o olho grudado em um enorme telão onde já acontecia uma festa organizada pela Paramount, o brasileiro Rodrigo Teixeira festejou o Oscar de efeitos visuais conquistados por A Invenção de Hugo Cabret. "Tão logo o filme foi anunciado como vencedor, uma gritaria ensurdecedora tomou conta da festa", disse ele, por telefone, ao Estado. Teixeira fez parte da principal equipe responsável pelos efeitos do longa de Martin Scorsese.

Já Mark Bridges, que levou a estatueta de melhor figurino por O Artista, revelou que o filme foi rodado em cores porque havia a possibilidade de alguns mercados se recusarem a projetá-lo em preto e branco. "Felizmente, mantivemos o projeto original, pois fizemos uma preparação detalhada para as texturas da imagem com que os atores seriam apresentados", contou.

Gore Verbinski, que venceu pela animação Rango, lembrou que foi feita uma detalhada pesquisa para chegar aos detalhes do filme. "Tivemos um grande trabalho, que é comum nesse tipo de produção, mas a textura de Rango exigiu um cuidado especial", comentou o veterano diretor, cujo filme é um sucesso mundial - já acumulou cerca de US$ 245 milhões na bilheteria.

Havia a expectativa de que o Brasil chegasse lá, ganhando o Oscar de forma meio enviesada, o de canção, com Carlinhos Brown, por Rio. Não deu. Ganhou a canção dos Muppets, que nem é tão boa. Bem antes disso, o primeiro Oscar da noite foi para... melhor fotografia, Robert Richards, por A Invenção de Hugo Cabret. O segundo, de direção de arte, para Dante Ferretti, por... Hugo Cabret. Martin Scorsese saiu na frente na 84.ª cerimônia de entrega do Oscar, que começou pontualmente às 22h30 (do Brasil), no Kodak Theatre, em Hollywood. Quem primeiro pisou no palco foi Morgan Freeman, para lembrar que, desde o primeiro Oscar, em 1929, o cinema mudou muito, mas em preto e branco ou cor, silencioso ou sonoro, digital ou analógico, o fascínio permanece.

Foi o que todos os críticos não se cansaram de advertir. Num momento de mudança do cinema, o fato de os campeões de indicações do ano - Hugo Cabret, de Scorsese, e O Artista, de Michel Hazanavicius - se voltarem para os primórdios, para a época do mudo, somente reforçou a ideia de que, por maiores que sejam as transformações, há que ter fé na permanência dessa que é chamada a sétima arte. O cinema muda para permanecer o mesmo, parafraseando a frase de Tancredi na obra-prima de Luchino Visconti - que nunca ganhou o Oscar -, O Leopardo.

O terceiro Oscar da noite, apresentado por uma dupla de sonho - Cameron Diaz e Jennifer Lopez -, foi o primeiro para O Artista. Mark Bridges, Cameron e Jennifer seguiram no palco para apresentar o Oscar de maquiagem - para A Dama de Ferro. Por maior que seja a arte de Meryl Streep, sua impressionante caracterização como Margaret Thatcher não teria sido a mesma coisa sem o apoio dos maquiadores Mark Coulier e J. Roy Helland. Antes dos prêmios - e da apresentação dos nove indicados pelo apresentador Billy Crystal -, foram mais de duas horas de tapete vermelho, acompanhando a chegada das celebridades ao Kodak Theatre, que Crystal definiu como 'o teatro da bancarrota'.

As mais belas da noite - Jessica Chastain, Milla Jovovich, Natalie Portman, Rooney Mara. Quem era aquela mulher de cabelo curto (cor de cenoura) que usurpou o lugar de Viola Davis? Meryl Streep fica bem de dourado, não? E a Glenn Close, com sua mistura de terninho e vestido rabo de peixe? O tapete vermelho do Oscar é sempre aquele momento de conferir as celebridades. Para os homens, é sempre mais fácil, como disse um dos indicados para melhor ator, Brad Pitt. Basta um smoking. Já as mulheres desfilaram Marchesa, Louis Vuitton e Versace, os campeões dos brilhos para a noite.

Sandra Bullock apresentou o Oscar de melhor filme estrangeiro, ou em língua não inglesa. Lembrou que aprendeu a falar alemão na infância, mas disse seu texto em inglês, acrescentando que o cinema é uma mídia maravilhosa e sem fronteiras, que aproxima as pessoas de nacionalidades e culturas diferentes. O vencedor seguiu o script que todo mundo apostava - A Separação, do iraniano Asghar Farhadi. O diretor fez um discurso sucinto, dedicando seu prêmio ao sofrido povo iraniano, discreta referência à ditadura de Mahmoud Ahmadinejad. Outro prêmio, outra vitória anunciada - Octavia Spencer, melhor coadjuvante, por Histórias Cruzadas, The Help, de Tate Taylor. Octavia chorou, e Billy Crystal disse que aquilo era a cara do Oscar.

O 2 a 1 de Hugo Cabret sobre O Artista virou 4 a 1, com mais estatuetas - melhor edição de som, melhor mixagem de som. Uma (rara) surpresa - o Oscar de montagem, para Millenium, Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, de David Fincher. O favoritismo na categoria era do Artista, que havia recebido o prêmio do sindicato. E logo o Cirque du Soleil. A Academia, que eliminou a apresentação das canções indicadas, abriu espaço para um número sensacional do grupo.

O Homem de Ferro (Robert Downey Jr.) e a apaixonada de Shakespeare (Gwyneth Paltrow) apresentaram o Oscar de documentário. Outra surpresa - o favorito Pina, de Wim Wenders, sobre Pina Baush, perdeu para Undefeated, sobre equipe de beisebol que joga suas fichas num treinador considerado 'loser' (perdedor) - e ganha. Nada mais hollywoodiano do que esse tema da segunda chance, e numa história real. Um comediante, Chris Rock, fez gracinha ao apresentar o Oscar de animação - e o vitorioso foi Rango, elaborada paródia de western, por Gore Verbinski, diretor dos três primeiros filmes da franquia Piratas do Caribe.

Exatamente, meia-noite. A quinta vitória de Hugo Cabret, efeitos visuais. E, logo, 5 a 2 - melhor trilha, para Ludovic Bource, O Artista. Na volta às origens do cinema, a Academia está fazendo com que o filme que se vale de mais tecnologia - de ponta, com direito a 3D - dê uma lavada no francês Artista. E o Oscar de melhor ator coadjuvante foi para... Christopher Plummer, como o velhinho que sai do armário em Toda Forma de Amor. Plummer foi aplaudido de pé, tributo a um veterano de 82 anos (o mais velho vencedor) que era canastrão no tempo de A Noviça Rebelde e hoje é grande ator.

No sábado à noite, a temporada de prêmios nos EUA teve outro momento importante com a entrega dos Independent Spirit Awards. É o Oscar dos independentes, que este ano consagrou O Artista, vencedor nas categorias de filme, diretor (Michel Hazanavicius), ator (Jean Dujardin) e fotografia (Guillaume Schiffman). O Spirit também premiou vários outros indicados para os prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas - Michelle Williams foi a melhor atriz, por Sete Dias com Marilyn; Christopher Plummer, o melhor coadjuvante, por Toda Forma de Amor; A Separação, do iraniano Asghar Farhadi, venceu como melhor filme estrangeiro; e Alexander Payne ganhou o Spirit de roteiro adaptado, por Os Descendentes. Já o Prêmio Piaget, dado pelo sindicato dos produtores a um filme particularmente inovador, foi para o admirável Take Shelter, de Jeff Nichols, ainda sem distribuidor para o Brasil. Também no sábado, foi divulgada a lista dos filmes e artistas que vão concorrer à Framboesa de Ouro, o anti-Oscar, que destaca os piores do ano - Transformers 3 e Crepúsculo são "favoritos". / L.C.M.

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