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Uma história que não teve fim

A vida do genial Casé, morto de forma ainda desconhecida, vai parar em livro

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2010 | 00h00

Há histórias do passado sobre músicos brasileiros de talento assombroso, que foram pouco reconhecidos para o grande público, eram mitologicamente incensados na classe artística e morreram precocemente. Talvez por aqui o caso mais famoso seja do brilhante pianista Tenório Júnior, que desapareceu misteriosamente no dia 27 de março de 1976, quando acompanhava Vinicius de Moraes e Toquinho em turnê por Buenos Aires. Pela mão pesada do regime militar argentino, ele "saiu para comprar cigarro e nunca mais voltou."

Outro caso de um talento absurdo interrompido precocemente pela morte, que ocorreu em São Paulo dois anos depois, no dia 30 de novembro de 1978, envolveu o saxofonista e clarinetista José Ferreira Godinho Filho, o Casé. Agora, a história ganha luz por meio da biografia Casé - Como Toca Esse Rapaz!, escrita por Fernando Lichti Barros.

O jornalista e músico, que trabalhou no Estado de 1977 a 1979, levou seis anos no processo de apuração, escrita e lançamento do livro. A relação com o universo do músico, porém, havia se dado décadas antes. Contatos feitos pessoalmente foram dois. O primeiro, em 1966, quando Barros tinha apenas 13 anos e conseguiu entrar em um clube de Catanduva, no interior de São Paulo, que só permitia maiores de 14 na casa. Lá, ficou pasmo ao escutar o solo de Casé ao saxofone para Harlem Nocturne, na orquestra J. Rodrigues. O segundo choque ocorreu 7 anos após, quando, na mesma cidade, o jovem ouviu o improviso de Casé em Samba de Verão, de Marcos Valle.

Depois, em conversa com músicos, Barros continuava a ouvir histórias do saxofonista com muita frequência. Era gente da pesada, muitos "músicos dos músicos", como o próprio biografado, mas também nomes que ganharam projeção, como João Donato, Paulo Moura, Raul de Souza, Nailor "Proveta", Laércio de Freitas e Rubinho Barsotti, do Zimbo Trio.

Em 1984, quando trabalhava no Jornal da Tarde, o jornalista datilografou um roteiro sobre passagens da vida de Casé, entre elas, sua misteriosa morte, em 1978, aos 46 anos, cuja verdadeira causa permanece desconhecida até hoje. O Instituto Médico Legal apontava onze tipos de doenças diferentes, mas o corpo foi encontrado com diversos hematomas. "Eu dormi 20 anos com a história do Casé. Tantos músicos se referiam a ele como um dos maiores saxofonistas do mundo. Foram 70 entrevistados a partir de 2004. O texto ficou pronto em 2008, depois eu fui retocando e comecei a correr atrás de editoras", diz Barros.

Diante do desinteresse do mercado cultural, o jornalista decidiu jogar o conteúdo do livro, gratuitamente, na internet. A partir dali, a repercussão foi tamanha que músicos que acompanharam ou simplesmente tiveram o privilégio de ouvir Casé tocar decidiram procurar o autor, acrescentando detalhes importantes para a confecção da biografia.

O resultado, levando-se em conta o fato de o personagem central do livro não ter sido um frontman ou um cantor de grande sucesso, ou seja, dificultando o acesso a informações a seu respeito, é um livro com histórias saborosas sobre um dos maiores - e mais obscuros -, instrumentistas do País. Entre elas, muitas que elevam Casé a uma espécie de mito, a passagem sobre quando o músico passou a ser o primeiro sax alto da orquestra da TV Tupi, em 1945, aos 13 anos, ainda de calças curtas e paletó; a viagem aventureira e sem contrato para tocar em Bagdá durante meses e as diversas vezes em que impressionou nomes como Severino Araújo, K-Ximbinho e Sylvio Mazzucca ao esmerilhar partituras ao primeiro contato, sem nunca tê-las lido antes.

Para quem não conhece a fundo o talento de Casé, muitas dessas histórias podem soar inverossímeis, mas basta ver a extensa lista de entrevistados por Barros e escutar alguns dos poucos registros do músico, que podem ser ouvidos no saxofonistacase.blogspot.com. "Eu tive contato com pessoas que têm uma memória incrível. Muitas das histórias eu tive de filtrar e cruzar versões para ser fiel. Talvez siga com novos livros. Existem muitos músicos fantásticos, como o Casé, que não podem cair no esquecimento", diz Barros.

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