Uma história quase real

Hilary Mantel fala sobre a década que passou na companhia dos amigos e inimigos do rei

MARIA FERNANDA RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2013 | 02h09

O reinado de Henrique VIII e seus amores sempre renderam assunto para a indústria cultural. No cinema, fizeram sucesso filmes como Os Amores de Henrique VIII e Elizabeth. Na TV, a série The Tudors. A ficção história também tem sido um bom filão para o mercado editorial.

Sobre o projeto de recontar histórias da era Tudor, as adaptações para o teatro e TV e sua recente observação sobre Kate Middleton se parecer com uma manequim de vitrine, que motivou até crítica do primeiro ministro britânico David Cameron, Hilary Mantel, autora de Wolf Hall e O Livro de Henrique, fez uma pausa na escrita do último volume da trilogia e respondeu, por e-mail, as seguintes perguntas.

A senhora criou dois grandes romances baseados em pessoas e eventos reais. A vida sobressai à imaginação? É mais difícil escrever a partir da imaginação ou dar vida a personagens que conhecemos desde a escola?

Nunca me impressionei pelos livros da escola. Sempre achei que havia uma história maior espreitando por entre as linhas. Ao mesmo tempo, eu tinha a nítida sensação de que as pessoas da História não eram separadas de mim; eles só estavam na sala ao lado. E sempre tive uma paixão por entrar nessa outra sala. É natural que eu me tornasse uma autora de romances históricos. Há um sentimento de frustração por não ter estado lá, não ter assistido os eventos ou tocado as pessoas. Você tenta criar para compensar a frustração. Você tenta de todas as formas entrar na sala: pelo buraco da fechadura, por debaixo da porta. Mas também escrevi romances contemporâneos.

Aqueles que conhecem a História sabem como esses livros vão acabar. Isso foi um desafio?

Podemos saber o final, mas não sabemos como os personagens chegam lá. Sabemos o "que", mas não sabemos o "por que". E o fato de os leitores saberem isso dá ao romance um tipo particular de tensão: eles querem intervir, dizer NÃO!, mas são forçados a ficar de lado, impotentes. O leitor deve considerar os pontos de virada: aconteceu desse jeito, mas tinha que acontecer desse jeito?

Qual foi a melhor parte de escrever a trilogia? Algum arrependimento por assumir o projeto?

Gosto do fato de que quanto mais sabemos mais há para saber. Ele tomou 10 anos da minha vida, e não me arrependo.

A senhora já disse que não prepara os enredos. Como é escrever uma obra tão detalhada dessa forma? Como foi a pesquisa?

É verdade. Quando eu era jovem, me preocupava em não ter habilidade de criar uma história que fizesse o leitor continuar virando as páginas. Depois aprendi que se você presta atenção nos personagens, construindo-os devidamente, a história vai se desenvolver. Em ficção histórica, você não precisa pensar no enredo. Passei quatro ou cinco anos escrevendo Wolf Hall, me fundamentando no período e me tornando o mais íntima possível com o que a vida era naqueles dias. Então eu senti que podia andar pela casa de Thomas Cromwell com a mesma facilidade que andaria na minha própria casa. Não tem a ver com checar os fatos.

Thomas Cromwell tem uma voz silenciosa e forte nos seus romances. Como foi criar esse personagem e o estilo narrativo?

Tenho pensado nesse projeto por muitos anos; então suponho que me preparei subconscientemente para isso. Muito foi decidido na primeira linha do primeiro livro: que ele seria contado a partir do ponto de vista de Thomas Cromwell. Para um livro ter sucesso, você precisa ouvir seu tom desde a primeira página. Havia muitas decisões difíceis sobre o conteúdo, mas depois das primeiras páginas eu não tive que agonizar com o estilo.

Foram muitos anos na companhia dessas figuras históricas e submersa num mortal período. Encontrou algo cruel em suas pesquisas que preferia não ter tomado conhecimento?

Penso que posso encarar tudo o que encontrei. Mas você está sempre alerta, durante a pesquisa, para alguma coisa que vai destruir o vínculo entre você e seu personagem; algo que fará você dizer: 'Eu não sei por que você fez isso e odeio que você tenha feito isso'. Acho que fui capaz de tornar as ações de Thomas Cromwell compreensíveis, para mim e para os leitores, embora nós possamos não simpatizar com o que ele fez.

Quando Mirror And The Light será lançado? O que esperar?

Ele vai traçar os quatro anos finais de Cromwell - sua ascensão a um poder e riqueza ainda maiores e sua queda repentina no gosto do rei, sua prisão e morte. Não sei quando termino.

Sempre foi uma escritora reconhecida, mas agora está ganhando tantos prêmios... Ao assumir o projeto, tinha ideia da aceitação por parte do público e crítica?

Não, e ainda estou atônita. Eu esperava que os livros fossem populares e me trouxessem um público novo, mas nunca imaginei a escala disso e o calor da resposta.

Está envolvida nas adaptações dos livros para o teatro e TV?

A BBC está produzindo uma série em seis episódios e tenho lido o roteiro enquanto eles são escritos. Estou muito satisfeita com eles. The Royal Shakespeare Company trabalha em duas peças baseadas nos dois primeiros romances, e estou super envolvida, colaborando com um experiente produtor. É a realização de um sonho para mim trabalhar com a RSC.

Recentemente esteve no meio de um debate envolvendo Kate Middleton, a quem teria chamado de manequim de vitrine. Como vê a repercussão do caso?

Acho que foi um alarido bobo. Quem lê o texto da palestra e o artigo que se seguiu a ela entende o que eu estava dizendo. Não foi nada anti real ou desrespeitoso. Eu estava pedindo à imprensa que desse uma chance para que os jovens membros da família real tivessem uma vida humana. A coisa toda foi tirada de contexto. E o primeiro ministro e o líder do partido trabalhista foram questionados sobre o artigo e não tiveram o bom senso de dizer que não tinham lido, então se permitiram um comentário apressado o que os levou a fazer papel de tolos. No fim, acho que o caso não me causou nenhum dano a mim e certamente nenhum à família real.

HILARY MANTEL

ESCRITORA INGLESA

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