Uma História dos Povos Árabes, de Hourani, ganha reedição

É todo um universo fascinante que se desvenda para o leitor. "Uma História dos Povos Árabes", de Albert Hourani, já havia sido editado pela Companhia das Letras em 1994, numa edição de 523 páginas. Elas saltaram para 701 na reedição pela Companhia de Bolso. Parte importante do material que foi acrescentado é o posfácio, escrito em 2002 por Malise Ruthven. Hourani foi professor em Oxford por 30 anos. Queria desfazer preconceitos, mostrando a importância da contribuição cultural dos povos islamo-árabes. Quando morreu, em 1993, a mídia parecia reconhecer no fundamentalismo militante a única herança (brutal) dos árabes e a situação só piorou depois.Hourani não viveu para testemunhar o 11 de Setembro, mas Malise Ruthven diz que o fato, em si, e seus desdobramentos, dificilmente o teriam surpreendido. Como historiador de idéias e acontecimentos, Hourani possuía uma compreensão muito grande do legado comum de religião e consciência histórica que mantém os povos árabes unidos e também das forças estruturais e abismos ideológicos que os dividem. É um mundo tão volátil, numa região do mundo tão explosiva que a situação política de muitos, senão todos os países citados por Malise, mudou bastante nestes quatro anos.Península Arábica, Golfo Pérsico, Palestina, Turquia, África e Espanha. É essa a geografia que as populações estudadas por Hourani habitam. Apesar de todas as diferenças entre semitas (árabes e berberes) e arianos (persas e indianos), foram todos unidos pela via do Islã, com seu testemunho adamantino de fé - "Não há deus a não ser o único Deus, e Maomé é seu enviado." Para contar sua história islamo-árabe, o autor investiga disciplinas tão diversas quanto poesia e geografia, política e urbanismo, economia e teologia. Para dar conta de tão vasto saber, tinha de ser homem de cultura e erudição. Poderia sê-lo e isso não explicaria sua linguagem. A passagem por Oxford fez de Hourani um aristocrata da escrita.Ele investiga desde as peripécias de Maomé e seus companheiros em Meca e Medina há 14 séculos até figuras míticas como Ibn Khaldun, Ibn´ Arabi e Al-Ghazali, que fundaram o pensamento islâmico. Conta a história dos quatro califas ortodoxos, incluindo Ali, o pai dos xiitas, e historia o avanço do Islã até Andaluzia. É um livro precioso para quem quiser entender o mundo atual, mesmo que certas conclusões do autor - sobre a estabilidade que se seguiu às conquistas na África e Europa, por exemplo - não sejam muito convincentes.

Agencia Estado,

29 de agosto de 2006 | 11h25

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