Uma história de pecados familiares

Antes de se tornar grande escritor, Evelyn Waugh foi o que se define como um jovem perdido. Bebia demais, não tinhas aptidões profissionais. A literatura salvou-o e ele foi um crítico implacável da sociedade inglesa. Sua obra-prima é Memórias de Brideshead ? Desejo e Poder, que virou minissérie e agora ganha uma suntuosa versão para cinema dirigida por Julian Jerrold. Há algo de viscontiano nessa história de pecados familiares, justamente na suntuosidade cênica com que o diretor procura captar o estertor decadentista de uma classe em agonia.

Crítica: Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2010 | 00h00

O filme é sobre um jovem pintor sem dinheiro que penetra no meio aristocrático, representado pela mansão senhorial de Brideshead. Ele será ambicioso a ponto de querer possuir Brideshead, mas a casa e seu significado vão lhe escapar constantemente, numa espécie de consciência tardia. Quem lhe apresenta esse sedutor velho mundo é o dissoluto Sebastian, um gay que se encanta pelo herói e a quem ele trai, ao se apaixonar por sua bela irmã. Mas ela está prometida, ou melhor, reservada, pela mãe obsessiva, para um católico praticante. Mas o pintor é ateu, o que o descredencia como partido.

Embora Luchino Visconti possa ser uma referência, os grilhões psicológicos unindo os personagens talvez tenham mais a ver com o Joseph Losey que filmou Harold Pinter. E mais do que os conflitos de classes, a religião é o centro dramático de Brideshead, o filme. Também é seu limite, na medida em que o diretor parece olhar o problema "de fora". Todo mundo é tão obcecado por ela que o ateísmo de Ryder, o protagonista, faz dele um estranho nesse mundo. É o que lhe diz Sebastian ? "Pobre Charles (Ryder), não pertence a grupo nenhum."

Existem cenas lindas no filme. Todo o episódio "veneziano" mostra que o diretor tem olho para a beleza. Greta Scacchi faz Cara, a amante do lorde proprietário de Brideshead, que fugiu para a Itália para fugir à dominação da ex-mulher. Ela percebe que a ligação de Ryder com Sebastian é só uma fase e que seu interesse real é pela irmã, mas o jovem não tem outra escolha, fechado no homossexualismo que o consome em culpa e o leva a beber demais.

É um filme cuidado, mas o que faz a diferença é o elenco. Emma Thompson é perfeita no papel da mãe classuda, quando expulsa Ryder da mansão. Há uma crispação nervosa, um tremor no lábio que ela expressa com frigidez, transformando sua angústia num espasmo. Essa mãe superprotetora colhe somente o ódio dos filhos. Sebastian é Ben Whishaw, que faz o poeta Yeats em O Brilho de Uma Paixão, de Jane Campion. Ryder é Matthew Goode. São todos perfeitos nos papeis.

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