Uma história de família, por Rosi

Os conflitos de Três Irmãos revelam um país inteiro, marcado por personagens que fascinam por sua humanidade

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2013 | 02h11

Havia gente fazendo fila pelas escadas internas do palais para assistir à versão restaurada de Lucky Luciano, em Cannes Classics, há duas semanas. A maioria, incluindo o repórter do Estado, foi atraída pela promessa de que o próprio diretor Francesco Rosi iria apresentar seu clássico de 1973. No final, Rosi não apareceu. Aos 90 anos - e cinco meses, como destacou o diretor da Cinemateca de Bolonha, responsável pela restauração -, o cineasta ficou preso ao leito, em Roma, devido a complicações pulmonares decorrentes de uma gripe. Mas houve uma recompensa, que talvez se estenda ao DVD ou Blu-ray de Lucky Luciano, quando o filme for lançado nesses suportes.

Martin Scorsese gravou, especialmente para Cannes Classics, uma apresentação destacando a importância do filme sobre o mítico mafioso. Você pode, eventualmente, desgostar de certos títulos recentes da filmografia de Scorsese, mas não colocar sob suspeita a acuidade de suas análises críticas - nem o amor pelo cinema, que o tem levado a se bater pela restauração de clássicos ao redor do mundo. Outro clássico de Francesco Rosi está agora disponível para o público de DVD e chega amanhã às lojas.

Três Irmãos é de 1981. Philippe Noiret, Michele Placido e Vittorio Mezzoggiorno são os 'tre fratelli' do título original, mas é provável que a figura inesquecível do filme, para o espectador que ainda não o conhece, venha a ser o personagem do velho interpretado por Charles Vanel. O filme é sobre três irmãos que voltam à casa de sua infância. Seguiram caminhos diversos - um é juiz, outro, professor, e o terceiro, um trabalhador braçal. Vieram para enterrar a mãe e decidir quanto ao futuro do pai idoso. A casa é uma personagem tão viva quanto qualquer um deles.

O próprio Rosi estudou direito e gosta de dizer que talvez tivesse chegado a juiz, se o cinema não o tivesse desviado no meio do caminho. Ele desistiu do curso. Trocou-o pelo teatro e foi este que o aproximou de Luchino Visconti, de quem foi assistente em Belíssima. O cinema virou uma paixão e, em 1952, Rosi já codirigia (com Goffredo Alessandrini) o primeiro filme, Camicie Rosse. Ele fez mais um em regime de codireção (Kean, com Vittorio Gassman) e outros dois como experiências solas (A Provocação e Renúncia de Um Trapaceiro). Mas Rosi, como grande cineasta, surgiu em 1961, quando Salvatori Giuliano abriu um novo caminho.

No Brasil, o filme foi lançado como O Bandido Giuliano. Mais do que pelas figura do biografado, o famoso fora da lei siciliano, foi o método de Rosi que deixou os críticos e o público siderados. Ele criou um novo estilo de cinema - documentado, não documentário. Prosseguiu nesta via com Le Mani Sulla Città, Os Bravos da Arena, O Caso Mattei e Lucky Luciano. Desviou-se dela e assinou Felizes para Sempre, de 1967, com Omar Sharif e Sophia Loren, seu único filme pelo qual os críticos não têm muito apreço. Aventurou-se pela ficção, e Cadáveres Ilustres e Três Irmãos são suas obras-primas não 'documentadas'.

Três Irmãos abre-se com a imagem do velho de preto, na estrada. Aparecem imagens de uma mulher - a que ele acaba de perder. Os filhos acorrem ao seu chamado. Vão reatando os laços desfeitos e o velho - o extraordinário Charles Vanel - liga-se à neta que o operário trouxe com ele. Identifica nela a mulher que morreu. Rosi traça um quadro das divisões da sociedade italiana no começo dos anos 1980. Faz isso com alma de poeta mais do que com rigor sociológico. Mais de 30 anos depois, seu filme ficou ainda melhor.

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