UMA HARPA NO CARNAVAL

Surpreendente apresentação do paraguaio Celso Duarte em meio à folia do Recife reforça a vertente latino-americana e o caráter inusitado do Rec-Beat

LAURO LISBOA GARCIA, ESPECIAL PARA O ESTADO, RECIFE, O Estado de S.Paulo

14 Fevereiro 2013 | 02h06

A "quarta-feira ingrata" mais uma vez chegou tão depressa só pra contrariar, como diz o frevo de Luiz Bandeira. E a impressão que ficou é de que o Carnaval Multicultural do Recife de 2013 estava um tanto mais tranquilo do que nos últimos anos. Em proporção inversa, porém, Céu encerrou o Rec-Beat com um show bem mais dançante e animado do que o de dois anos atrás. Vestida de sereia, com canções do novo álbum, homenagem a Eydie Gormé e um cover de Pepeu Gomes, a cantora voltou ao festival com uma banda de peso e em certos momentos teve alguma dificuldade de locomoção por conta da cauda da fantasia.

Em noite que teve revivals dos pernambucanos Jorge Cabeleira e o Dia em Que Seremos Todos Inúteis e dos paulistanos Os Mulheres Negras (Maurício Pereira e André Abujamra), que trouxeram repertório antigo para o palco, a grande ousadia foi a apresentação de um exímio harpista paraguaio, Celso Duarte, em show basicamente solo, depois de uma banda (Jorge Cabeleira) que tocou rock pesado.

Nascido no Paraguai e criado no México, onde vive hoje, Duarte tocou ritmos típicos dos dois países onde há tradição da harpa na música popular, mas, como provou, seu propósito não é repetir o já feito, e sim mostrar novas possibilidades do instrumento em formato contemporâneo, além do folclore.

Normalmente ele se apresenta com seis músicos, porém, como contou, os integrantes de seu grupo não tiveram condições de pagar as passagens para o Brasil e ele adaptou os arranjos para uma apresentação, com eventual participação de integrantes da banda colombiana Monsieur Periné (que se apresentou no sábado) no último número. Além da harpa, com virtuosismo impressionante, Duarte tocou charango e um outro instrumento de corda mais simples em momentos de "descanso".

Outro que causou impacto sozinho, na noite de domingo, foi o violonista e cantor mexicano Juan Cicerol, conhecido como uma espécie de Bob Dylan em seu país, de cujo cancioneiro trouxe as músicas que compõem seu segundo álbum, Haciendo Leña. Na noite de segunda foi a vez do duo Finlandia - formado pelo argentino Mauricio Candussi (acordeon e teclados) e pelo brasileiro Raphael Evangelista (violoncelo) - arrebatar o público com suas curiosas fusões, entre elas um forró com milonga.

A dupla tem pouco tempo de estrada, mas já está com o quarto álbum pronto. No nome Finlandia há um tom de brincadeira, como eles dizem, por se tratar de um país "neutro", o que evita a tão manjada rivalidade de Brasil e Argentina no futebol, mas também (e principalmente) é uma referência da música melancólica que eles tocam - muito embora essa melancolia seja contraditoriamente "alegre" no caso do Brasil.

Ao lado de Monsieur Periné e do rapper venezuelano, esses grandes músicos estrangeiros do continente americano foram as melhores surpresas dessa edição do Rec-Beat, que confirma a força nessa tendência. Em todos os shows o público esteve atento às novidades e pediu bis.

Como é natural, a última atração de cada noite - Karina Buhr, Tulipa Ruiz, BNegão & Seletores de Frequência e Céu - é a que mais atraiu público no Cais da Alfândega, acima de 15 mil por noite, de sábado a terça.

O show de BNegão e seu grupo foi o de maior impacto, uma pedrada atrás da outra, com repertório e som de peso - funk, hip-hop e rock -, de seu segundo álbum Sintoniza Lá, um dos melhores de 2012, com força nos metais e no pulso do baixo. Além disso, teve homenagem ao rapper Sabotage e ao mestre James Brown, e citação de Dorival Caymmi com o carismático e potente cantor fazendo beatbox e comandando a massa eufórica numa apresentação antológica. Antes dele, Anelis Assumpção homenageou seu pai, Itamar, trouxe bom repertório e banda coesa, mas não arrebatou.

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