Uma guerra de muitas facções

Romance de Evelio Rosero retrata o terror no cotidiano dos colombianos que moram longe dos grandes centros, num país tomado pelo confronto de décadas entre o Exército, paramilitares, guerrilheiros e narcotraficantes

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2010 | 00h00

A infinidade de cartazes pelas ruas de Bogotá poderia levar o incauto a crer que, nesta véspera de eleição presidencial na Colômbia, a disputa pelo poder se equilibra entre dois polos - a situação, personificada no candidato Juan Manuel Santos, e a oposição, no nome do Partido Verde, Antanas Mockus. Mas são, na realidade, quatro as forças que há décadas decompõem o país: o Exército militar, o paramilitar, os guerrilheiros e os narcotraficantes.

Nesse cenário em que não se distingue quem é de fato criminoso - há poucos dias, um relatório da ONU apontou que militares foram responsáveis pela morte de 3 mil civis, depois travestidos de guerrilheiros - se passa a narrativa de Os Exércitos, romance de 2006 que rendeu ao colombiano Evelio Rosero, autor de outros 12 títulos, reconhecimento internacional (ganhou, por exemplo, o Independent Foreign Fiction Prize). Uma história que poderia ser a de qualquer morador dos recônditos do país, e portanto situada no fictício vilarejo de San José: o drama do professor Ismael Passos, de sua vizinha brasileira Geraldina Almida e de tantos outros que se veem atingidos física ou emocionalmente pelos efeitos de uma guerra difusa. "Há uma espécie de indiferença nas grandes cidades da Colômbia, onde o fenômeno da violência não é tão direto como em outras regiões. Ouvem-se as notícias de massacres como se tivessem ocorrido na Lua, e não a poucos quilômetros de casa", diz a o escritor em entrevista ao Estado.

Ismael e Geraldina também representam, nas páginas iniciais, outras facetas do país ofuscadas pelos conflitos no noticiário internacional. Ele, o narrador, é professor aposentado de 70 anos, casado há 40, e cujas ambições hoje se resumem a pouco mais que o direito de espiar a vizinha a tomar sol nua. Ela é a languidez e a sensualidade, preocupada tão-somente com uma vida tranquila ao lado do marido e do filho. Mas o terror não demora a se insinuar. "Que dor de mundo", suspira Geraldina a caminho da casa de uma amiga cujo marido está desaparecido.

Quando se ouve o primeiro disparo em San José, "não parece a guerra, é outra guerra: alguém descobriu alguém roubando", imagina o narrador. Então os tiros viram rajadas, "de modo que não era a outra guerra, é a guerra de verdade". Pouco a pouco, os personagens apresentados nas primeiras 70 páginas começam a desaparecer, e aos que sobram resta a decisão de seguir em nomadismo involuntário para território mais seguro ou se fixar ao que ainda possuem. Ismael prefere ficar - "fugir é morrer, de certa maneira". Em sua decisão, esbarra em cenas que fazem parte do cotidiano nos povoados - o escritor ressalta que há muito de realidade no texto fictício. O velho vê crianças brincando com uma granada, deslumbradas com a explosão quando ele consegue atirá-la longe. E se recusa a virar herói para a jornalista que busca apenas rostos para o conflito.

"O noticiário nacional se limita a enumerar mortes, não questiona suas causas. Notícias que em outro lugar do mundo causariam pavor, como a dos "falsos positivos" (a identificação dos 3 mil civis mortos como se fossem guerrilheiros), aqui são mencionadas como se se tratasse de mudanças climáticas. Há muita superficialidade e frivolidade na mídia, e quis mostrar isso", diz Rosero.

Ele sabe dimensionar a complexidade de uma possível solução, mas entende que no confronto ela não está. "Alguém disse que a guerra é assunto demasiado sério para ser deixado nas mãos de militares. Ademais, é uma guerra absurda: em 50 anos a guerrilha não conseguiu tomar o poder, e tampouco o governo pôde derrotá-la." Sobre que resultado espera das urnas nos próximos dias, limita-se a dizer que não votará no melhor presidente, "mas no menos pior". Prefere não revelar quem é. A bem da verdade, ainda não está certo de que valha a pena votar.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.