Uma grande festa muito bem dirigida

Semana passada, na Galeria Olido, Ângelo Madureira mostrou o primeiro trabalho que criou em São Paulo, em 1999, vindo do Recife. Na ocasião, Delírio funcionou como a apresentação de uma espécie de RG da sua formação no Balé Popular do Recife, a companhia onde começou a dançar. Além de profissional, a sua ligação com o Balé Popular do Recife é também familiar, uma vez que seu pai, André Madureira, foi o criador do BPR, povoado por vários outros Madureiras.

Crítica: Helena Katz, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2010 | 00h00

Delírio surgiu da Bolsa de Pesquisa Rede Stagium 1998 e a sua remontagem se deu a partir do convite que recebeu de Christine Greiner, a curadora do Festival Panorama Sesi de Dança 2010. O primeiro Delírio nasceu da seguinte questão: se o frevo é a música e o passo é a dança, como disse Waldemar Oliveira em seu livro Frevo, Capoeira e Passo, quando se dança o frevo com música de rock progressivo, por exemplo, o que se dança?

Nascia aí o tipo de deslocamento que, mais adiante, se tornaria a marca da sua trajetória artística. Associou-se com Ana Catarina Vieira, que vinha da formação em balé clássico, e juntos criaram Basilibaque (2002), Somtir (2003) e tudo o que se seguiu. A primeira inquietação voltaria em Outras Formas (2004), quando a dupla passou a se questionar sobre maneiras de lidar com a dança popular em uma perspectiva contemporânea. Daí em diante, foram aprofundando essa questão em suas outras obras: Como? (2005), Clandestino (2006), O Nome Científico da Formiga (2007), Agô Dança Contemporânea (2008), O Animal Mais Forte do Mundo (2009), Somtir 2 (2010) e Baseado em Fatos Reais (2010).

A volta a Delírio, onze anos depois, acontece em uma "outra forma". Os materiais das danças populares que foram retrabalhados ao longo desse tempo pela dupla, transformaram irreversivelmente o corpo e a dança de Ângelo Madureira. Quando esse "novo" corpo volta aos "velhos" materiais que construíram a ponte Recife-São Paulo naquela época, torna-se uma verdadeira aula sobre o sentido e a pertinência das releituras em dança.

Frescor. Em primeiro lugar, porque existe uma geração que não conheceu e que precisava ser apresentada ao Delírio, mas a um Delírio que fizesse sentido para o Ângelo de hoje e para ela, pois não se pode ignorar que a dança popular e a dança contemporânea permanecem distanciadas. E também porque a qualidade das escolhas artísticas tomadas na remontagem refazem o frescor e demonstram a pertinência de se continuar a fazer aquela primeira pergunta.

É impossível descrever a genialidade da dança de Ângelo Madureira. Nem mesmo uma sucessão de adjetivos daria conta da sofisticação de cada um dos tantos detalhes do que agora revela. Como relatar a qualidade dos seus acabamentos, a precisão de cada gesto, sempre impecavelmente dançado? A sensibilidade com que transita pelo sagrado/profano e pelo masculino/feminino, a justeza do seu tempero clownesco, a competência artística com que borda todas as danças, a elegância com que transforma um colchão, um travesseiro e um cobertor em distintos figurinos para cada uma delas? é mesmo muita coisa para ser destacada. Afinal, não é sempre que se tem a oportunidade de assistir a um brincante-artífice (ou seria um artífice-brincante?) em ação.

A dança de Ângelo Madureira domina, com a sabedoria que a experiência traz, cada uma das muitas dobras implicadas em cada um dos materiais que retira das danças populares. São muitos saberes conjugados com maestria, pois além de dançar, ele também interpreta personagens, toca pandeiro e fala com o púbico. Uma verdadeira festa, bem dirigida por Ana Catarina Vieira, que soube lapidar com sensibilidade o ajuste de cada uma das cenas, que são iluminada por Juliana Augusta Vieira na justeza que cada uma pede.

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