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‘Uma geração de artistas negros está politizando suas práticas’, diz Peixoto de Azevedo

Em entrevista a coluna, o diretor falou sobre o teatro negro, que vem ganhando cada vez mais espaço na cena paulistana

João Wady Cury, O Estado de S. Paulo

14 de novembro de 2019 | 03h00

Acadêmico e diretor teatral, José Fernando Peixoto de Azevedo vem se firmando na cena paulistana como uma das principais vozes do teatro negro. Diretor da Escola de Arte Dramática (EAD), da Universidade de São Paulo, concebeu e dirigiu ano passado um dos maiores sucessos da temporada, Navalha na Carne Negra, de Plínio Marcos, montada com atores negros. E este ano volta à carga com As Mãos Sujas, de Jean Paul Sartre, no Sesc Ipiranga, em que mistura linguagem teatral e cinematográfica, com inspiração em Glauber Rocha. A versão completa dessa entrevista pode ser acessada no blog ArCênico.


O teatro negro tem hoje o espaço devido na cena?

O que temos nos últimos anos na cena paulistana é, ao mesmo tempo, um levante, a ocupação e a invenção de lugares e práticas. Por um lado, resultado de um processo que excede o teatro e as artes, que abarca mobilidade social, acesso à universidade pública, formas públicas de financiamento das artes, tudo resultado de muita luta. Por outro lado, no caso do teatro, uma geração de artistas negros que, tendo acesso a um ou mais aspectos desse processo, está politizando suas práticas, na medida em que ocupar esses lugares não é algo pacífico, exige combatividade, fazer corpo e produzir pensamento; tudo isso, fazendo ver que estamos apenas no momento de uma tomada de meios, tão precária e provisória quanto é aquilo que um dia chamou-se “vida nacional”. Evidentemente, nós, negros, sabemos disso antes mesmo que a expressão – vida nacional – fosse posta em xeque.


Artistas negros têm o espaço justo nas principais funções das artes cênicas? 

Eu mudaria os termos da questão. Se estamos falando de ocupar lugares, o que acontece quando os ocupamos? A questão aqui não é qual o meu lugar de fala, mas quais relações produzem esses lugares. Estamos discutindo teatro negro hoje, dessa maneira, porque a presença de artistas negros, nas mais diversas funções, muda o modo como fazemos, vemos e compreendemos o teatro. Não é uma operação simples: compreender e tirar consequência do fato de que a história do teatro brasileiro, contada até um tempo atrás, era a história resultante do apagamento de práticas e corpos. De onde eu venho, apagar quer dizer matar.

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