Uma festa sem fim

B-52's aterrissa no Brasil para últimos shows da atual turnê e Kate Pierson analisa trajetória

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2013 | 02h32

A Garota de Ipanema da Groenlândia está de novo na área. Aos 65 anos, Kate Pierson, frontwoman da banda B-52's, está de volta ao Brasil - o HSBC Brasil recebe, neste sábado um dos últimos shows de sua turnê mundial antes de uma pausa.

Falando ao Estado por telefone, de Santiago, no Chile, Kate contou que, após o show de São Paulo, vão se apresentar em Nova York e na Filadélfia, e finalmente darão um tempo. Ela aproveitará para lançar seu primeiro disco solo, que tem participações de Nick Valensi, dos Strokes, e da australiana Sia Fuler, entre outros.

O núcleo principal da banda - Kate, Fred Schneider e Cindy Wilson - segue na frente do time, mas Keith Strickland (compositor, tecladista, guitarrista e um dos fundadores do grupo) desistiu das turnês este ano e não veio. "Tem sido diferente sem o Keith, mas tem sido bom", disse a cantora, que é um dos símbolos mais consagrados do pop em todo o mundo.

Kate é a voz feminina no hit Candy, que ela gravou em 1990 com Iggy Pop. Em 1991, ela colocou voz em Shiny Happy People, do REM. Também está na música e nas vozes do filme Os Flintstones. As músicas do grupo, como Rock Lobster, Love Shack e Private Idaho, são tão conhecidas pelo mundo afora quanto os gols de Pelé. Seus perucões e figurinos influenciaram meio mundo no star system atual, e ela tem perfeita consciência disso.

"Às vezes vejo a Lady Gaga com asas, ou usando uma gaiola gigante, e penso: nós fizemos aquilo! Muito do senso de fantasia do pop atual tem alguma influência do B-52's, e vemos isso como algo muito lisonjeiro, muito legal. Somos fãs do Scissor Sisters, por exemplo, que é muito influenciado por nós. É uma honra, porque não são imitadores, todos têm sua personalidade", afirmou Kate.

A cantora reconhece que, além do senso teatral, o grupo também sempre caprichou no sarcasmo e na ironia. "Nossa característica é que não podemos ser categorizados. Sempre agimos coletivamente, e o resultado sempre foi imprevisível. Quando estamos juntos, a gente ri, mas também produzimos coisas que são mais emocionais, outras são mais políticas. O senso de ironia está presente, mas o principal é achar um meio de celebrar a diversão, de usar a cultura trash americana em nosso proveito", afirmou.

Ativista de organizações ambientais, ela foi presa há 20 anos num dos protestos pioneiros contra o uso de peles de animais em desfiles de moda. Foi durante um desfile da revista Vogue. Ela brinca que é "exagerado" dizer que foi presa. "Foi um bom lance para dar publicidade à causa do PETA, mas eles retiraram as acusações", afirmou.

Disse que continua no ativismo, mas está mais soft hoje em dia. "Acabamos de fazer um leilão beneficente de roupas que usei em vídeos do nosso grupo com renda revertida para o abrigo de animais Saugerties-Woodstock. Levantamos um monte de dinheiro, fizemos a festa num lugar legitimamente rock-n'-roll."

O B-52's acaba de fazer uma excursão com The Go Go's pelos Estados Unidos. O espectro musical que habitam não é nem minimamente excludente: já excursionaram com Talking Heads, Blonde e Ziggy Marley. Ela diz que adoraria cantar Candy num show do grupo em São Paulo, "mas sem a voz de Iggy Pop não vai dar; ele é um homem selvagem, é duro a gente se encontrar", afirma.

Rock in Rio. O grupo viveu seu auge nos anos 1980. Foi atração do primeiro Rock in Rio, em 1985. "Foi mágico, aquele foi um dos nossos maiores shows. Lembro de voar de helicóptero em volta do Corcovado, uma maravilha", lembra.

Naquele mesmo ano, morreria um dos integrantes fundamentais do grupo, Ricky Wilson, de Aids. "Quando ele morreu, a gente pensou que não daria para continuar. O som tinha mudado muito. Inicialmente, a gente fazia um som mínimo, muito básico. Ainda hoje a gente estava conversando sobre isso, sobre como gostaríamos de tocar daquele jeito de novo. Quando fizemos Cosmic Thing, a banda tinha incorporado novos integrantes, não era mais aquela maneira de fazer música, era mais sofisticado", ela conta.

"Mas fizemos o disco e vimos que valeu a pena continuar celebrando a incrível conexão que a gente tinha. Estávamos rindo de novo, e isso nos manteve unidos", analisa a cantora.

O B-52's viveu altos e baixos, e quase foi esquecido em meados dos anos 2000. Voltou a se tornar requisitado em 2009, quando lançou o álbum Funplex, que trouxe o melhor da estética exagerada e festeira do B-52's para a contemporaneidade.

Nos anos 1990, Kate assumiu-se gay e iniciou um longo relacionamento com Monica. Pode ser que, na folga após a festa em São Paulo, elas se casem.

THE B-52

HSBC Brasil. Rua Bragança Paulista, 1281.

Informações e ingressos: 4003-1212.

Sáb., às 22h. R$ 170 / R$ 300

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.