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Uma fera da batera

Johnathan Blake fala do caminho da Filadélfia até a banda de Tom Harrell

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2013 | 02h07

A constelação jazzística é das mais diversas, mas decididamente Johnathan Blake não tem pinta de que vá ser coadjuvante na terceira edição do BMW Jazz Festival, o maior do País (que começa no dia 6 com a Unity Band de Pat Metheny). "Metheny é um desses músicos que mudaram a forma de como a música seria tocada a partir de sua abordagem", diz o modesto Blake, cujo contraponto rítmico de bateria com o sax de Jalell Shaw é algo que tem deixado os críticos boquiabertos.

A última vez que vi um baterista como bandleader foi durante a apresentação de Art Blakey, nos anos 1980, aqui em São Paulo. É uma coisa rara. Você é bandleader e compositor. Qual é sua ambição como compositor de jazz, a essa altura?

Bem, acho que o principal é construir algo que eu possa repartir com o resto do mundo. Quando eu componho, tenho o propósito de criar melodias que as pessoas possam caminhar cantando ou assoviando. Eu ouço certas melodias e faço os arranjos e sempre penso que meu principal objetivo é fazer as pessoas se sentirem bem. Esquecerem por alguns momentos as agruras do dia a dia e relaxarem. Fazendo canções para as pessoas saírem cantando por aí.

No seu último álbum, você gravou a canção Dexter's Tune. É um tributo ao saxofonista Dexter Gordon (1923-1990)?

É uma das minhas baladas favoritas. Eu a ouvi há muitos anos em um filme, Tempo de Despertar, com Robert De Niro e Robin Williams. Dexter Gordon também estava no filme. Há uma cena em que ele está tocando piano para o personagem de De Niro, uma canção que ele deverá dançar com a mulher pela qual está apaixonado, sua terapeuta. Eles dançam e será a última vez que se verão, porque ele deverá regressar para seu local de origem. É a última dança, e Dexter simula que toca o piano. É um dos meus filmes favoritos até hoje. Alguns anos depois, eu estava em Nova York e assistia a um show do grande pianista Kenny Kirkland, e ele tocou essa canção ao vivo. Um dos meus pianistas preferidos tocando minha canção favorita. Eu fiquei siderado. Disse a Kenny o que aquela canção significava para mim e ele escreveu a notação musical dela para mim num guardanapo. Quando ele morreu, eu disse a mim mesmo que, no meu primeiro disco, colocaria essa música como homenagem a Kirkland.

Apesar de baterista, você parece ter como referências outros instrumentistas, como saxofonistas, pianistas...

Não creio que seja verdade. Como compositor, eu tenho como fontes um monte de outros instrumentos. Mas eu tenho como a maior fonte de inspiração os bateristas. Cresci na Filadélfia e minhas primeiras influências foram bateristas daquele pedaço, como Mickey Roker. Depois, vieram os outros, como Tony Williams, Art Blakey, Elvin Jones, que é talvez o meu favorito até hoje. Eu me apaixonei pelo quarteto de John Coltrane principalmente porque Elvin impulsionava aquele grupo com seu espírito.

Você está em Londres acompanhando Tom Harrell. Ele é um músico estranho: quando está fora do palco, parece viver num mundo particular, não se comunica muito. Mas no palco se transforma, é excepcional.

Para mim, ele é um dos mais prolíficos músicos e compositores do jazz moderno. Suas composições são únicas e memoráveis. As harmonias são complexas e as melodias são simples. É muito belo e eleva o espírito. Ele foi diagnosticado com esquizofrenia paranoide há alguns anos, e as pessoas nessas condições são geralmente desconectadas do mundo. Por isso acho que a música salvou a vida dele. Se não fosse a música, ele estaria em um sanatório. Quando ele toca, tudo desaparece, todos os problemas ficam em segundo plano. Quando ele coloca o trompete em sua boca, ele conta sua história. É um artista que alcança um nível magnífico, eu aprendi muito nesses oito anos que toco com ele.

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