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Uma fábula de esperança

Zach Snyder reinventa o mito do Super-Homem para iluminar tempos sombrios

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2013 | 02h12

Na visita ao set de Man of Steel - a cena filmada era a da batalha de Smallville, nos arredores de Naperville, Chicago -, o diretor Zach Snyder agradeceu a Christopher Nolan, que havia definido o conceito do novo Super-Homem, mas lhe passou o bastão da realização. E ele anunciou que estava voltando às origens do mito. Que o seu Homem de Aço seria um signo de esperança, e não de escuridão. No darkness but hope.

É uma marca tão conhecida que só aquele S tem peso de nome. O filme chama-se O Homem de Aço. Toma de assalto os cinemas brasileiros, mas terá outro inimigo nesta sexta-feira, além do representado pelo General Zod. O calendário de lançamento das superproduções faz com que entrem juntos Man of Steel e Lone Ranger, O Cavaleiro Solitário. Haja cinema para tantos blockbusters. E ainda há Meu Malvado Favorito 2, Guerra Mundial Z e Minha Mãe É Uma Peça, este último já tendo ultrapassado 2 milhões de espectadores.

O espectador que não se interessa pela guerra dos números, mas pelos filmes, terá de escolher entre um maluco que usa capa e voa e um herói mascarado. Entre uma tragédia e uma farsa. Por diferentes que sejam os filmes, há algo que aproxima dois heróis tão distantes, no tempo e no espaço. Diante da indecisão de Kal-El, aliás Clark Kent, aliás Super-Homem, que clama pelos humanos, a companheira de Zod, Feora, diz que a preocupação ética do kryptonita compromete seu desempenho e será sua derrota. Em Lone Ranger, a fala é que são infelizes os tempos em que homens de bem precisam andar mascarados.

Esse conceito do homem de bem está no centro do Júlio César de William Shakespeare e foi retomado pelos irmãos Taviani no belíssimo César Deve Morrer. Os mafiosos se intitulam homens de bem como os romanos que, na peça, matam o grande homem com medo de que se torne ditador. O que é um homem de bem? A discussão se faz presente em Homem de Aço por meio da moldagem da força e do caráter do herói por seus dois pais, o galáctico e o terráqueo. Ambos são homens éticos. Jor-El (Russell Crowe) é o legalista que pressente a autodestruição de Krypton e se recusa a associar-se ao ditatorial Zod. Jonathan Clark (Kevin Costner) adota o bebê do espaço, Kal-El, transforma-o em Clark e passa o tempo tentando ensinar ao filho não apenas valores, mas como controlar sua força.

Zoado na escola, vítima de bullying, Clark passa o filme tentando decifrar o mistério da própria identidade. Pressente que é um homem entre dois mundos, mas ainda não sabe quem é nem o que fazer com seus poderes. Como na primeira, que depois virou a segunda trilogia da saga Star Wars, de George Lucas, Zach Snyder vale-se dos conceitos de Joseph Campbell para construir o herói e refletir sobre o poder do mito. Há controvérsia sobre quão fiel ele é ao personagem criado por Joe Shuster e Jerry Siegel. Se existe infidelidade, é bem-vinda. Há algo do estoicismo dos heróis de certos westerns, como o mítico Shane de George Stevens, o admirável Alan Ladd de Os Brutos Também Amam, de1953. Ambos são reencarnações do Cristo. Nada do herói e do traidor de Jorge Luís Borges. Traidor aos olhos dos militares e de Zod, Clark vai realizar a trajetória do herói. Ao descobrir-se assim, vai lamentar que o velho Jonathan, seu mentor, não o tenha visto canalizar sua força num projeto. Mas ele viu, é o que diz a mãe terrena, Diane Lane.

Existem cenas eletrizantes de ação em Man of Steel e o desenvolvimento da tecnologia permite a Zach Snyder ousar muito mais que qualquer diretor da velha tetralogia com Christopher Reeve. O cinéfilo deve se lembrar do humor de Richard Lester no segundo, com toda aquela confusão entre Zod e God (Deus) no personagem de Terence Stamp. Mais que uma comédia de ação e de efeitos, Lester criava uma farsa para desmistificar o herói, nisso antecipando o Gore Verbinski de O Cavaleiro Solitário, que também se vale da ferramenta do humor para revelar o Lone Ranger pelo olhar de Tonto (Johnny Depp). Ou, como diz o diretor, para fazer seu Dom Quixote via Sancho Pança. Só que, por maior que seja a ação, ela não é o objetivo de Man of Steel.

São as ideias - de ética e heroísmo, de esperança num mundo que ameaça ser tragado pela escuridão e pela própria intolerância. Shakespeare, autor de Júlio César, escreveu também Muito Barulho por Nada. Há muito barulho em O Homem de Aço, mas, nessa construção gigantesca, o mais não mascara o menos. Há uma linda história de amor. Há um ator extraordinário, Henry Cavill, com seu olhar dolorido. Toda a construção dramática é para destacar o que não é nem um sussurro - um olhar humano, o do pai que identifica no menino o grande homem, o super-homem que seu filho vai ser.

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