Uma exposição de encontro

Mostra no Rio revive presença da pintora portuguesa Vieira da Silva

CAMILA MOLINA, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2012 | 02h10

Entre 1940 e 1947, os artistas Arpad Szenes e Maria Helena Vieira da Silva viveram no Rio. Ele, judeu de origem húngara, e ela, uma das principais pintoras portuguesas, conheceram-se em Paris, mas se mudaram para o Brasil depois das frustradas tentativas de Vieira da Silva (como é conhecida) de conseguir a nacionalidade portuguesa a Szenes para protegê-lo da perseguição nazista durante a 2.ª Guerra. Como dizia a artista, foram "sete anos de poetas", de produção artística e convivência com criadores brasileiros que se tornaram amigos (entre eles, a escritora Cecília Meireles e o artista Carlos Scliar) e frequentadores da residência do casal, no bairro de Santa Teresa.

Cidade especial na trajetória da pintora portuguesa, morta em 1992, o Rio abriga uma importante exposição dedicada à artista, a mostra Vieira da Silva - Agora, inaugurada esta semana no Museu de Arte Moderna (MAM) carioca. "É a mais completa das exposições de Vieira da Silva já realizada no Brasil", diz Maria João Bustorff Silva, presidente da Espírito Santo Cultura, associação criada em 1998 para produzir atividades culturais diversas de intercâmbio entre o Brasil e Portugal.

A exposição, com 51 obras de Vieira da Silva, entre pinturas e desenhos, é um dos grandes destaques da programação do Ano de Portugal no Brasil, que começou em setembro e vai até junho de 2013. "A mostra foi feita toda com verba de Portugal (patrocinadores), não tem Lei Rouanet, nada disso", afirma Maria João, que foi ministra da Cultura em seu país entre 2004 e 2005. A mostra, realizada com orçamento de 335 mil, reúne pinturas (algumas inéditas) da artista vindas da Europa e também de instituições e colecionadores brasileiros, como o próprio MAM do Rio. Há ainda um segmento especial de fotografias de Vieira da Silva e Szenes, que documentam, principalmente, a vida do casal no Brasil.

A curadoria da exposição, em cartaz até 17 de fevereiro, é assinada por Marina Bairrão Ruivo, diretora da Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva, e por Luiz Camillo Osorio, curador do museu carioca. Como conta Maria João, privilegiou-se um caminho cronológico para apresentar a produção vanguardista de Vieira da Silva por meio de obras criadas entre 1934 e 1986.

Como destaca Luiz Camillo Osorio, vê-se na mostra um percurso de intenso "embate entre figuração e abstração", revelando a construção de uma poética que colocou "dentro de um universo muito pessoal, às vezes lírico, às vezes trágico, aspectos relevantes da pintura do pós-Guerra - no momento de maturidade de sua linguagem". "Suas pinturas produzem uma atmosfera densa, cortada por uma dinâmica trama de planos que se movem expandindo diagonalmente o espaço", descreve ainda o curador - entre os motes usados por Vieira da Silva em suas composições estão o tabuleiro de xadrez, os losangos e o quadriculado.

"As interrogações de Vieira da Silva centram-se no problema do espaço, uma constante ao longo de toda a sua produção", define a curadora Marina Bairrão. "Os trabalhos iniciais já antecipam pinturas posteriores, onde estruturas cada vez mais complexas traduzem o intenso desejo de compreensão do espaço e deixam adivinhar múltiplas contribuições para a criação de um novo conceito espacial", completa.

Concomitantemente, o MAM do Rio apresenta a mostra Diálogos com Vieira da Silva, reunindo 28 obras de 21 artistas (Guignard, Volpi, Antonio Bandeira, entre outros) pertencentes à instituição e que traçam relação pessoal, de linguagem ou de influência entre os criadores.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.