Uma exaltação de seres deslocados

Em 'Zucco', escrita poderosa de Bernard-Marie Koltès retrata a fragmentação dos contatos íntimos

JEFFERSON DEL RIOS , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

27 Setembro 2013 | 02h22

Em Zucco, o espetáculo é o acontecimento. O enredo, numa primeira leitura, pode até confundir. Afinal, é a historia de um assassino sem interferir objetivamente na ordem social, mas apenas externando desequilíbrio pessoal. O que o envolve em algum mistério e aura inquietante é a escrita poderosa de Bernard-Marie Koltès. O autor quis a metáfora do mundo convulso em geral, independente de contextos específicos. Sem intenção de mostrar delinquentes sociais como o historiador marxista Eric Hobsbawm no conhecido estudo Bandidos. Koltès é o poeta da solidão e do desconforto em existir. Zucco não ostenta ideais anarquistas, republicanos ou separatistas como Luigi Lucheni, que em 1898 matou a Imperatriz Elisabeth, da Áustria (a romanceada Sissi), Manuel Buiça e Alfredo Costa, que em 1908 alvejaram mortalmente a tiros o Rei D. Carlos I, de Portugal, ou o agente da Primeira Guerra Gavrilo Princip que, em 1914, executou o arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do Império Austro-Húngaro ao qual sua Bósnia e a Sérvia estavam subordinadas.

Um assassino compulsivo (o serial killer), a começar pelos pais, Zucco foi mais um psicopata suicida que Koltès recriou espelhando-se nas atormentadas personagens de Gorki e Dostoievski que o impressionaram quando, bastante jovem, escreveu a peça Amarguras.

A força verbal em imagens agressivas e soturnas da obra é que impõe a um maníaco perigoso a estatura de personagem do reverso da racionalidade humana. O efeito dramático de sequências-chave, algumas soluções visuais e a alta qualidade de elenco da Companhia Ordinária, dispensam longas considerações sobre o autor.

Koltès (1948-1989), artista talentoso e de curta vida, foi alçado a ícone do teatro contemporâneo. Ao seu redor, há uma dessas quase seitas que se fazem e desfazem no mundo das artes (no momento impressiona a indiferença ao antes venerado teórico e diretor polonês Jerzy Grotowski).

Embora Koltès seja inegavelmente um dos melhores da cena francesa em mais de quarenta anos, a Companhia Ordinária preferiu usar menos o texto traduzido pela compositora Letícia Coura e mais as sugestões do universo rock do grupo The Doors e seu Jim Morrison, herói, neoRimbaud, guru trágico na cultura de massa, anjo-fantasma. Em parte, é uma pena porque Koltès tem consistência a se admirar. Diante da sua exaltação de seres deslocados, um espectador poderá achar que seria mais coerente e boa novidade ter em cena a música Van Gogh, de Leny Escudero. É verdade que Leny, filho de republicanos espanhóis refugiados na França, onde se consagrou, é absolutamente desconhecido no Brasil. Van Gogh, canção pungente, em francês, fala da loucura e isolamento do pintor holandês fora de sua terra e de suas raízes. Mas não só dele. Vale lembrar que Zucco era italiano. Mas a opção está feita e bate com a juventude do elenco e, talvez, atenda a considerações outras do diretor José Fernando Azevedo que estudou filosofia.

Zucco foi transformado em caso exemplar ou "fisionomia fantasmagórica da sociedade que o produziu". Paradoxalmente, a vitalidade dos intérpretes não permite um retrato pesado (o rock pop é bonito, mas dispersa), o que não impede a sensação de desordem familiar, os efeitos de sistemas repressivos, tédio e violência cotidianos.

O eco maior de Zucco - a obra e a realização no palco - é o do esfacelamento no parentesco e a sensação de incomunicabilidade mesmo quando se está em "tribos". Essas anomalias parecem crescer dia a dia e, o uso de imagens e música acentua a fragmentação dos contatos íntimos justamente quando o que mais se fala é em redes sociais (e Koltès escreveu antes de surgirem esses recursos que oscilam entre a modernidade e a alienação).

Os intérpretes passaram por um meticuloso e realmente elogiável trabalho corporal (Tarina Quelho) e de voz (Mônica Montenegro), em um espetáculo de refinado acabamento (iluminação, cenários, preparação musical, vídeos, figurinos). Profissionais prontos, todos bons (deveriam ser relacionados com seus respectivos papéis). É preciso destacar Rafael Lozano, como Zucco, entre a extroversão ameaçadora e a introspecção, Giuliana Maria e Bruna Lima, revezando-se com densidade em vários tipos.

A recém-criada companhia tem um nome levemente brincalhão, mas não é nada Ordinária. Muito ao contrário. Novas luzes na temporada.

CRÍTICA

ALTA QUALIDADE DE ATORES E SOLUÇÕES VISUAIS DIFERENCIAM CIA. ORDINÁRIA

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