Uma Eva contra a intolerância

Elas começaram como amigas e terminaram como irmãs, embora Eva Schloss não a tenha visto nessa condição. Trata-se de um caso inusitado, mas foi isso mesmo que aconteceu, como relata a autora de A História de Eva, lançado pela Editora Record na VI Festa Literária de Pernambuco. Ela tinha 15 anos em 1944 quando foi levada com a mãe a um campo de concentração nazista na Polônia. Nunca mais veria a menina Anne Frank com a qual brincava na ruas de Amsterdã antes da Ocupação. No entanto, foi com Otto Frank, pai da autora do famoso diário, filmado várias vezes (a última pela BBC, série que acaba de ser lançada pela Versátil Home Vídeo) que casou a mãe de Eva Schloss. Rara sobrevivente de um campo de extermínio, Eva Schloss participou da mesa de abertura da Fliporto conversando com o escritor Moacyr Scliar e o jornalista Geneton Moraes Neto sobre nazismo e discriminação racial.

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2010 | 00h00

Aos 81 anos, Eva Schloss decidiu contar seu passado para alertar as novas gerações sobre as consequências trágicas da intolerância. Mostrou, a pedido de Geneton, o número tatuado em seu braço pelos nazistas, que conserva como testemunho da barbárie, mas corrigiu uma frase marcante de seu livro, "Não acredito na bondade do homem", quando o jornalista lhe perguntou se mantinha o mesmo pessimismo. "Mudei de opinião, pois acho que essa também é uma observação preconceituosa, pois, afinal, existem ainda pessoas maravilhosas no mundo", justificou.

Naturalmente, ela também encontrou alguns tipos horrorosos pela frente, como o carrasco nazista Mengele, que viu várias vezes enquanto esteve presa no campo, do qual foi libertada pelos russos. Curiosamente, o primeiro pedido de Eva Schloss ao sair dele foi ver um filme. "Talvez porque nós, judeus, duran t e a Ocupação, formos impedidos de frequentar cinemas e eu conservava a frustração de não ter visto Branca de Neve e os Sete Anões, como as outras crianças."

Eva comentou: "É inaceitável que pessoas residentes ao lado dos campos digam que não sabiam o que acontecia lá, sentindo o cheiro de carne humana queimada." Ela concluiu que é preciso lutar contra todas as formas de intolerância, "pois não foram só judeus, mas ciganos e homossexuais, que morreram nos campos de extermínio."

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