Uma estrela no quarto dos fundos

Até parecia um pedido de casamento, cerimônia típica daquelas mocinhas do século retrasado. De um lado do sofá, o pai, carrancudo, de braços cruzados. De outro, a mãe, as duas irmãs mais velhas, uma adolescente linda de 15 anos e um rapaz alguns anos mais velho. Mas não era um pedido de casamento. "Era a gente tentando convencer meu pai a me deixar ser atriz. Ele queria que eu fosse advogada como ele", explica Amanda Lee, 24 anos, atriz. "Para complicar, minhas irmãs mais velhas têm profissões ´de respeito´: uma é médica e a outra faz administração de empresas"."Argumentei que era uma profissão séria, que meu trabalho é profissional, que Amanda é talentosíssima. E ele lá, desconfiadíssimo´", lembra Amancio Canhães, diretor de atores e professor de teatro, que revelou Thiago Lacerda e Thiago Fragoso (ambos na minissérie A Casa das Sete Mulheres, respectivamente como Giuseppe Garibaldi e o capitão Estevão).Mesmo com a conversa, o pai continuou cismado. Cisma que só passou recentemente, há quatro meses, quando o diretor Jayme Monjardim ligou para a residência dos Lee. Monjardim - que recentemente dirigiu O Clone - convidava Amanda para um teste. E ela passou. Desde terça-feira, a garota pode ser vista no horário nobre da Globo como a mestiça Luzia, a empregada sensual de A Casa das Sete Mulheres, macrossérie com mais de 50 capítulos.Pelo menos, no primeiro capítulo, A Casa... conseguiu um bom Ibope: média de 36 pontos na Grande São Paulo. Número um pouco abaixo de Esperança, a novela das oito, tradicionalmente a maior audiência da emissora.Em entrevistas, Monjardim começou a citá-la como uma das revelações. Os elogios nem teriam sido necessários para despertar a atenção. Nas chamadas de A Casa..., Amanda - com um rosto de traços fortes, no estilo Jennifer Lopez - é a única que aparece nua, enroscada com o galã Dado Dolabella. A cena abriu os olhos da Playboy, que já a convidou para um ensaio. Mas ela disse não. Pelo menos por enquanto.Como você entrou na "Casa..."?Amanda Lee - Monjardim me viu em Coração de Estudante, novela das seis em que entrei para fazer uma participação especial e acabei ganhando um papel fixo. Aí ele me chamou para um teste e passei.Como foi esse teste? Fiz uma cena de Laços de Família com o Marcelo Novaes. Eu era a Helena (personagem de Vera Fisher) e ele, o Edu (que foi de Reynaldo Gianecchini). (Risos.) Engraçado, né? Um papel tão urbano que me fez ganhar a Luzia, uma personagem de época, serviçal de uma estância do Rio Grande do Sul.Você tem traços que lembram mesmo uma mestiça, mas, no entanto, seu sobrenome é Lee, americano... Minha família é muito misturada. Meu pai é filho de americanos e minha mãe é descendente de índios, negros e portugueses. Mas eu me considero uma típica carioca. Inclusive, essa foi minha principal barreira para entrar em A Casa.Por quê? A toda hora tenho de cuidar do meu sotaque para não soltar algum chiado, ou pior, um "aí, galera". (Risos.) Por ser descendente de índios, Luzia não tem sotaque. Seria muito mais fácil substituir meu carioquês por um gauchês, por exemplo. Mas não ter sotaque?! É horrível.Mesmo antes da estréia de "A Casa", você chamou atenção nas chamadas, protagonizando cenas ousadas. Se a minissérie decolar, como vê a possibilidade de receber convites para posar nua? E o assédio do público? Quanto ao assédio do público, acho normal. E acredito até que é bem bacana. Quanto a posar nua é algo que não passa pela minha cabeça. Pelo menos por enquanto.(Amancio Canhães interrompe): Quando começou comigo, aos 15 anos, ela se vestia como um moleque, sem a menor sensualidade. Amanda tinha vergonha de ser bonita.Como assim?Sempre quis ser atriz e meu maior medo é ser vista apenas como um rosto bonito, ou, pior, um corpo bonito. Passei um tempo como modelo para conseguir uma grana a mais. Não é o tipo de trabalho que curto. Sou uma atriz, estudo para isso e quero ser vista assim.

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