Uma estrela brasileira para exportação

Alice Braga fala de diretores, dos novos filmes na Argentina, nos EUA e diz que sonha com uma minissérie

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2013 | 02h07

No começo, ela era a sobrinha de Sônia Braga, que virou mito sexual do cinema brasileiro com filmes como Dona Flor e Seus Dois Maridos e A Dama do Lotação. Mas, rapidamente, Alice Braga revelou ter brilho próprio, fez carreira no exterior e hoje é a estrela brasileira mais conhecida em todo o mundo.

A bem da verdade, ela é mais conhecida lá fora do que no País, e isso devido à sua escolha pelo cinema. Se fizesse novelas, na Globo, Alice seria apontada nas ruas. Não é preconceito - é um problema de agenda. Hollywood não lhe dá trégua para que ela possa se dedicar durante oito meses a uma novela.

Alice Braga participou do evento chamado Summer of Sony, em Cancún. Foi participar da coletiva de Elysium, a fantasia científica de Neill Blomkamp interpretada por Matt Damon, Jodie Foster e Wagner Moura. Deu algumas individuais. Havia mais gente interessada em falar com ela do que com importantes astros norte-americanos que também estiveram no México.

Como é pegar em armas novamente no cinemão?

Isso já virou piada em minha casa. Quando há um problema sério, minha mãe diz - 'Chama a Alice que ela salva todo mundo'. Não sei como começou isso, mas fiz aquela ficção científica com Will Smith (Eu Sou a Lenda) e, depois, Predadores. Confesso que me preocupava, ao pegar naquela arma - será que alguém vai acreditar nisso? Não me vejo pegando em armas na vida, mas em Hollywood eles acham que dou conta (risos).

Você acaba de filmar na Argentina. Como foi a experiência?

Na verdade, voei diretamente de Buenos Aires para o México. Acredite, estava no set até anteontem, viajei o dia inteiro ontem e cá estou. É sempre difícil representar em outra língua, seja inglês ou espanhol. Ajuda um pouco o fato de minha personagem falar portunhol, é uma coisa do próprio roteiro. Todo mundo sempre me pergunta a diferença entre filmar nos EUA e no Brasil. Lá, o trailer é maior, aqui a gente nem tem isso. Mas, na essência, fazer cinema é parecido em toda parte. Pode ter mais ou menos dinheiro, mas o processo não difere. Filmar exige paciência, a gente espera muito. Mas é como uma família, a família do cinema.

Seu filme argentino é

sobre o quê?

Chama-se El Ardor, e é dirigido por um jovem, Pablo Fendrik, que já participou da seleção da Semana da Crítica, em Cannes, com La Sangre Brota. O elenco é muito bacana, com o Gael García Bernal e a história é de vingança, sobre um xamã do Amazonas. Filmamos lá e também na Argentina. É uma coprodução com o Brasil, com a Bananeira Filmes (de Vânia Catani). Aliás, o Gael é muito amigo e sócio de Diego Luna, com quem filmei antes e que também está em Elysium. É como eu digo - uma família. A gente se conhece, fica amigo, uma coisa assim sem fronteiras, sabe?

Você emenda um filme no outro, mas tem essa resistência a fazer TV. Por quê?

Quem disse? Já fui apresentadora, fiz um episódio de As Brasileiras. O problema da TV é que, em geral, me chamam para fazer novelas e eu não consigo ficar presa por oito meses, às vezes mais. É muito tempo. No intervalo, estão sempre ocorrendo coisas e eu teria de desistir sabe-se lá do quê. O ideal seria se me chamassem para fazer minissérie. Embora a duração seja menor, a gente tem mais tempo de criar uma personagem. Gostaria muito.

E o Elysium?

Tenho conversado bastante com o Wagner (Moura) sobre essa experiência. Estamos muito orgulhosos de estar nesse filme. O Neill (o diretor Neill Blomkamp) fez aquele trabalho incrível em Distrito 9 e agora volta à ficção científica para tratar de assuntos contemporâneos da maior importância - a superpopulação, a desigualdade social, o empobrecimento de cada vez mais gente neste mundo. Elysium é sobre os excluídos no mundo do futuro. A elite habita em Elysium, o restante da humanidade vive com extrema dificuldade. Integro, no filme, o grupo que vai tentar se infiltrar em Elysium para acabar com os privilégios.

Neill Blomkamp é jovem,

mas já é um grande diretor.

Concorda?

Pô, cara, o Neill é sensacional. Em Distrito 9, sem dinheiro, ele fez um trabalho maravilhoso. Agora, com dinheiro, se permitiu soltar mais ainda sua imaginação, mas o curioso é que, mesmo com um orçamento muito maior, ele garante que faltou dinheiro para muita coisa que pretendia fazer e da qual teve de desistir. Neill é um artista visual. E ele se formou na África do Sul, durante o apartheid. Sabe o que significa a desigualdade, a segregação. Elysium é um grande filme político, mas se você quiser vê-lo somente como uma diversão, ele é. Só que eu acho que vai ser difícil para o público não pensar no que está vendo. Elysium tem a cara do mundo atual. A parte futurista é produto da imaginação do diretor. A Terra superpopulada ele filmou em áreas de risco da Cidade do México. Foi uma decisão ousada, mas você sente a veracidade. Tivemos um ótimo cicerone, o Diego (Luna), com quem havia feito Só Deus Sabe, de Carlos Bolado.

E quando você volta a

filmar no Brasil?

Agora. Vou fazer um filme no qual acredito muito, do Felipe Braga, que não é parente, apesar do sobrenome. Só pra reforçar essa coisa de família, da qual estou falando tanto. O Felipe traduziu o roteiro do próximo filme que o Wagner (Moura) vai fazer, o Trash, do Stephen Daldry, projeto com a O2.

E você não para, fazendo um filme após o outro?

Como não? Quando terminar isso aqui vou passar uns dias em Nova York. Revendo amigos, indo ao cinema. Quero ver um monte de filmes, de peças.

Você parece estar feliz da vida. Algum motivo especial?

O que você está querendo me perguntar? (Risos) Não vou contar. Mas me sinto uma privilegiada, e não como se estivesse em Elysium. Faço o que gosto, tenho a minha independência e o cinema tem me permitido conhecer muita gente interessante.

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