Uma época em busca do esquecimento

No recém-lançado Reflexões Sobre Um Século Esquecido: 1901-2000, o pensador inglês Tony[br]Judt analisa o crescente processo de descarte dos referenciais históricos mais próximos no tempo

Marcos Guterman, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2010 | 00h00

Um espectro ronda o século 21: o esquecimento. O fenômeno se manifesta pela redução do significado do passado recente e pela disseminada sensação de que o presente representa uma espécie de "marco zero" moral. Despreza-se assim o processo histórico do século anterior, congelado em rótulos tão negativos quanto convenientes ? fala-se de "totalitarismo", "globalização" e "neoliberalismo" como se fala de futebol. A história do século 20, segundo essa retórica, é apenas uma coleção de monumentos para os quais devemos olhar como forma de "lições", e não como contexto duradouro e complexo que não se encerra em si e que está longe de uma apreensão completa. É quase como se não houvesse história, mas um memorial sobre erros que não devem ser repetidos, à esquerda e à direita. Esvazia-se o sentido dos embates políticos e dos dilemas morais violentos do século passado, cujos efeitos ainda são evidentes e mal compreendidos. Mas a estratégia é justamente essa: fazer dos herdeiros do século 20 homens sem passado, presas fáceis do messianismo político amoral disfarçado de pragmatismo, em troca de absolvição e redenção. As meias-verdades transformadas em conceitos absolutos estão gravadas no dicionário do presente tempo, que "busca ativamente o esquecimento", nas palavras do historiador britânico Tony Judt.

Uma das vozes mais importantes da historiografia mundial atual, Judt publicou em 2005 o livro Reflexões Sobre um Século Esquecido: 1901 ? 2000, que chega agora ao Brasil (Editora Objetiva, tradução de Celso Nogueira, 504 págs., R$ 59,90) e que trata justamente desse crescente processo de descarte dos referenciais históricos mais próximos no tempo. A obra reúne ensaios e resenhas que Judt escreveu sobretudo para o New York Review of Books, nos quais o autor dialoga com alguns dos principais pensadores e personagens do século 20. É o resgate da capacidade de compreender o passado que está no horizonte desse historiador, cuja vida é, ela em si, uma homenagem à força do intelecto. Judt sofre de esclerose lateral amiotrófica, e desde 2009 perdeu os movimentos do pescoço para baixo. Mas, como ele mesmo disse numa entrevista em março passado à National Public Radio, dos EUA, "é possível sobreviver a coisas bem ruins se sua mente está intacta".

Sua inquietação o faz produzir pensamento profundo de forma invejável mesmo nessas condições terrivelmente adversas, e seus textos refletem uma firmeza racional que atravessa as aparências ? contra as quais, aliás, ele se insurge, na melhor tradição da história como reflexão. É assim que se evita o julgamento fácil e começa o difícil trabalho de compreensão, como queria o francês Marc Bloch, considerado um dos principais historiadores do século 20 e por quem Judt não esconde a admiração. Ao abordar as aparências, Bloch argumenta, em Apologia da História (1949): "Que um homem tenha matado um outro é um fato eminentemente suscetível de prova. Mas castigar o assassino supõe que se considere o assassino culpado, o que, feitas as contas, é apenas uma opinião sobre a qual todas as civilizações não entraram num acordo." Tomar a aparência de um acontecimento como se fosse o próprio acontecimento, baseando-se em princípios muitas vezes anacrônicos, é, portanto, um erro metodológico que arruína qualquer pretensão historiográfica ? a não ser que a estratégia seja justamente a de transformar versões em fatos, com objetivos inconfessáveis.

A esse propósito, Judt esmiúça o caso do britânico Tony Blair. Sob seu governo ultramidiático, os britânicos pareciam acreditar na imagem de que Londres havia renascido como centro do mundo, agora com ares cosmopolitas, mas isso só ocorreu por causa de "um expurgo com amplitude nacional da memória". Os conflitos de classe, as diferenças sociais e a pobreza foram "oficialmente enterrados". Para Judt, Blair, festejado como moderníssimo, foi na verdade "o anão do Jardim do Esquecimento".

No entanto, Blair perde feio diante de outro exemplo de embuste histórico detalhado por Judt: o marxismo. A partir de seu diálogo com o filósofo polonês Leszek Kolakowski, um dos principais críticos dessa corrente de pensamento, Judt mostra como os "intelectuais" (assim mesmo, com aspas) do século 20 se omitiram em relação aos crimes da União Soviética para não acabar com a fantasia do comunismo. Ignorou-se a tirania dos líderes comunistas "em nome de um ideal ostensivamente fincado numa realidade "materialista", mas cuja credibilidade dependia de se manter incólume às marcas da experiência no mundo real".

Por trás do esforço que Judt simbolizou em Blair e no marxismo ? e também na Alemanha nazista e nos EUA de Kennedy, Nixon e Kissinger, entre outros exemplos brutais ou sutis ? esconde-se uma campanha sistemática contra a capacidade de pensar sobre o passado, que, nessa estratégia, "precisa ser domesticado com um significado ou lição contemporânea antes que possamos abordá-lo", nas palavras do historiador.

O efeito disso é que os herdeiros do século 20 se transformaram em ilhas, cuja noção de pertencimento a alguma comunidade é miseravelmente destruída pela multiplicação infernal de referências superficiais, impossibilitando a identificação tanto com o presente quanto com o passado. É como se o homem tivesse deixado de fazer história, minando a capacidade de perceber a real dimensão dos acontecimentos.

A preocupação de Judt não é nova, claro. Michel de Certeau diz em A Escrita da História (1975) que a historiografia serve justamente para articular o real e o discurso, sempre na relação com o "outro", o que implica, necessariamente, a aplicação de valores morais. Ao dissecar a crise do pensamento no século 21, Judt constata a diluição acelerada desses valores, o que leva ao descrédito da política e ao desaparecimento dos verdadeiros intelectuais. A pasteurização dos conceitos despreza as singularidades e contradições. Assim, o nazismo é simplesmente o "Mal", como se a imensa máquina do Terceiro Reich pudesse ser resumida nisso. O mesmo se dá, diz Judt, com "nossa obsessão contemporânea", o terrorismo. Esse fenômeno é tratado como algo específico do pós-Guerra Fria, embora ele se manifeste há bem mais de um século. Não importa: para efeito de conforto espiritual, basta aceitar o que se enuncia como verdadeiro e que "faz sentido" em meio ao caos de mensagens. "O extermínio do passado é o projeto do século", afirma Judt.

Desse modo, encerrados em concepções seguras e fáceis, os acontecimentos do século 20 podem ser devidamente "superados", de modo a pavimentar o caminho para a absolvição de todas as responsabilidades e para reduzir tudo a uma nota de rodapé dos "novos tempos" de iluminação. Em resumo, como diz Judt, "o problema é a mensagem: que tudo isso ficou para trás, que seu significado é claro e que agora podemos avançar ? livres dos erros do passado ? para uma era diferente e melhor".

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