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Vanessa Barbara
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Uma educação clássica

Dois anos atrás, numa tarde de outono, o cronista Luis Fernando Verissimo estava ensaiando com sua banda, a Jazz 6, quando se deu conta de que eu sabia cantar o hino do Internacional (o que é estranho, já que sou paulistana, corintiana e estive no máximo duas vezes em Porto Alegre). De “plagas distantes” a “senda de vitórias”, seguindo por “Colorado de ases celeiro”, cantarolei gloriosamente os versos do hino de autoria do compositor Nelson Silva e calei-me quanto à procedência de tal informação na minha memória.

Vanessa Barbara, O Estado de S. Paulo

03 de agosto de 2015 | 02h00

A verdade, que não quis revelar na ocasião, é que um dos meus hobbies de adolescência era ouvir à exaustão CDs de hinos de times de futebol (como se vê, uma juventude perfeitamente normal). Aqui em casa, tínhamos dois: um mais clássico, com as versões oficiais e antiquadas das músicas, e outro produzido pela revista Placar em 1996, na qual cantores de rock e da MPB veiculavam novos arranjos para os hinos de seus times. O do Internacional, por exemplo, era interpretado pela dupla Kleiton & Kledir, o do Palmeiras ficou a cargo de João Gordo, e o do Atlético Mineiro foi entoado por João Penca e Seus Miquinhos Amestrados.

Até hoje, sei de cor todos eles. Enquanto há moças de boa família capazes de entreter os convidados de uma festa tocando ao piano prelúdios de Chopin, eu surpreendo os convivas entoando o hino do Bahia com uma afinação duvidosa, ou promovendo uma roupagem arrojada para o hino do Palmeiras, composto originalmente por um músico erudito (“Que a dureza do prélio não tarda” é um dos versos mais notáveis do hinário nacional).

Memorizar hinos de times agrega ao caráter dos jovens e é um ótimo exercício de vocabulário pomposo: graças a eles, passei a apreciar expressões como “salve o querido pavilhão” (Fluminense), “na estrada dos louros, um facho de luz” (Botafogo), “muita libra já pesou” (Flamengo), “dentro ou fora do alçapão” (Santos) e “ouve esta voz que é teu alento” (Bahia).

Os hinos ensinam história, como o do Vasco, que faz menção a um “heroico português” e usa um trecho instrumental do próprio hino de Portugal, e técnicas de narrativa, como o do Cruzeiro, que começa com o misterioso: “Existe um grande clube na cidade”. O do Náutico ensina a soletrar; o do Bangu prega a modéstia (“Em Bangu, se o clube vence há na certa um feriado”). Versos esquisitos não faltam, como “Nós somos campeões do gelo” (Atlético Mineiro) e “No remo, és imortal” (Vasco). 

Nada melhor do que um hino de time para compreender a hipérbole: um dos meus preferidos, o do Grêmio (desculpa, Verissimo), tem uma introdução antológica na qual se declara: “Até a pé nós iremos”. E o do América do Rio de Janeiro, considerado o mais bonito do Brasil, é categórico: “Hei de torcer, torcer, torcer/ Hei de torcer até morrer, morrer, morrer”. 

Enquanto uns vão de Sófocles, eu vou de Lamartine Babo. 

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