Uma dupla do barulho

Johnny Depp e Armie Hammer revivem a saga do Lone Ranger no novo filme do produtor da franquia 'Piratas do Caribe'

LUIZ CARLOS MERTEN / SANTA FÉ, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2013 | 02h11

Johnny Depp foi homenageado pelos comanches no começo do ano. Virou membro honorário da tribo. Desde que a rodagem de O Cavaleiro Solitário virou um tema importante na mídia de entretenimento dos EUA, Depp não fez outra coisa senão anunciar que Tonto é um dos personagens de sua vida - um pouco porque ele amava Jay Silverheels, que fazia o papel na TV, e também porque é uma forma de honrar seu sangue índio, ou nativo americano. "Inspirei-me na minha bisavó, que mascava tabaco, como fazem os índios. Até hoje, ao lembrar-me dela, o aroma me vem, e forte."

The Lone Ranger começou a nascer no imaginário de Depp e do diretor Gore Verbinski quando ambos faziam Piratas do Caribe. O projeto voltou mais intenso quando ambos trabalhavam no western de animação Rango, que ganhou o Oscar da categoria, há três anos. Conversando sobre a conquista do Oeste e tudo o que dela decorreu, ambos passaram a sonhar com um grande projeto - um grande filme de dentro do qual pudessem subverter clichês associados ao gênero western. O produtor Jerry Bruckheimer há dez anos já falava no assunto. "Aprendi a amar o cinema com John Ford", ele revela. E não se assustou nem um pouco com o fato de bangue-bangues estarem fora de moda em Hollywood, a ponto de o último grande diretor de westerns não fazer nenhum há mais de 20 anos - Clint Eastwood.

Desde Os Imperdoáveis, de 1992, que venceu os Oscars de filme e direção, o xerife Clint pendurou as armas. O filme de piratas também era considerado um gênero morto, e tentativas de ressuscitá-lo, como Piratas, de Roman Polanski, e A Ilha das Gargantas Cortadas, de Renny Harlin, produziram desastres monumentais.

O trio Bruckheimer/Verbinski/Depp não apenas conseguiu reverter a tendência como transformou Piratas do Caribe numa franquia bilionária. Depp, de astro cult - graças, especialmente, à associação com o diretor Tim Burton -, saltou para o panteão dos superastros. E, agora, eis que o trio tenta fazer a mesma coisa, criando um novo modelo de westerns para os anos 2000.

Gore Verbinski tem seu modelo, o italiano criador de spaghetti westerns Sergio Leone. Depp também tem o dele - Marlon Brando, que lamentava que Hollywood tivesse retratado os nativos americanos como selvagens. "Era importante para mim, até como homenagem a ele (Brando), tentar apagar isso." O próprio Jerry Bruckheimer tinha seus fantasmas para exorcizar, e por isso mesmo usou a paisagem do Utah (Monument Valley) e do Novo México como cenário para sua nova extravagância. Pois o filme é uma extravagância. Nada da simplicidade de Budd Boetticher, do purismo de Anthony Mann. The Lone Ranger cria o que não deixa de ser o western/tobogã.

Talvez seja o problema - existem muitos filmes em O Cavaleiro Solitário. A ação praticamente não para e a perseguição de trens, no desfecho, provocou aplausos da plateia de Santa Fé, onde o filme teve sua pré-estreia mundial há duas semanas. É verdade que o filme foi feito nas redondezas, e muita gente que aplaudia na sala esteve envolvida na realização. Mas também é verdade que, quando o projeto se impôs, Verbinski deixou claro que aceitava fazê-lo nos seus termos. E isso significava não apenas adotar um formato atraente para o público jovem, o da internet e dos games, como fazer um filme crítico sobre como o Oeste foi conquistado (leia abaixo).

The Lone Ranger teve uma trajetória particular. Surgiu no rádio, migrou para a TV e chegou ao cinema em dois westerns modestos de 1956 e 58 - numa época em que John Ford, para só citar um exemplo, estava no auge e assinava obras-primas do porte de Rastros de Ódio (The Searchers), com John Wayne. Comparativamente, O Justiceiro Mascarado, de Stuart Heisler, e Zorro e o Ouro do Cacique, de Lesley Selander, ambos com a dupla Clayton Moore/Jay Silversheel (da televisão), eram modestos, para se dizer o mínimo. Bruckheimer e Verbinski vão agora à forra. Nem eles nem Johnny Depp nunca consideraram que o ex-pirata do Caribe pudesse ser o herói mascarado. Para o papel, impôs-se Armie Hammer, que fez o par gay de Leonardo DiCaprio em J. Edgar, de Clint Eastwood. Hammer vem de uma família podre de rica, que ameaçou deserdá-lo, se ele insistisse nessa tolice do cinema. Hammer insistiu e agora colhe os louros, interpretando um herói mitológico. Só no rádio foram quase 3 mil episódios - exatamente 2.956. Garoto, em Detroit, Jerry Bruckheimer não deixava de ouvir o Lone Ranger chamar seu cavalo - 'Hey-O, Silver'. O chamado inspira uma das cenas mais engraçadas do filme. Espere para ver.

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