Uma dramaturgia feita de vozes

Soprano italiana Franceca della Monica está por trás de peças como Hécuba

LUIZ CARLOS MERTEN , O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2011 | 03h08

Existem vários motivos para que o espectador se encante com a bela montagem de Hécuba, por Gabriel Villela. O brilho da direção, o cenário e os figurinos (do próprio Villela), o texto de Eurípides e a qualidade da interpretação. Walderez de Barros domina a cena com sua criação da infeliz rainha de Troia, que quando o espetáculo começa recebe a notícia de que sua filha Polixena será sacrificada aos deuses pelos gregos. Logo serão dois cadáveres, não apenas o de Polixena, mas também o de Polidoro, o filho que Hécuba pensava estar seguro com Polimestor, rei dos trácios.

Todos esses motivos são fortes, mas há mais um ao qual você deve estar atento. A própria Walderez impressiona pela forma como diz o texto clássico. São anos de estrada, mas o que dizer dos integrantes do coro e de Nábia Vilela, que faz a filha? Quando ela canta, exibindo intensidade e potência vocal, o espectador tem certeza de que algo milagroso se produziu no palco do Teatro Vivo. O milagre tem nome: Francesca della Monica. Artista e professora italiana, Francesca foi importada por Villela - reside em Florença - para preparar o elenco de sua montagem. Francesca está longe de ser desconhecida no País. Sua atuação na formação e criação cênicas, em especial quanto à vocalidade e musicalidade do ator, já foram reconhecidas em outras montagens brasileiras.

"Eu amo o Brasil", ela diz e já provou esse amor colocando sua ciência e sensibilidade a serviço de Guimarães Rosa, por exemplo. "Meu trabalho em O Homem Provisório, com Cacá Carvalho, na Casa Laboratório/SP, não privilegiava o texto rosiano no sentido de resgatar a palavra. Lá era outra coisa. Era um tempo, uma harmonia, um conjunto vocal. O objetivo era usar a voz para criar sonoridades." A arte de Francesca engloba uma proposta, que se refere à preservação da identidade da voz e ao desenvolvimento do seu potencial para ocupar o espaço em que se insere e atuar como ferramenta de comunicação com o outro.

Essa contribuição é tão importante que o trabalho de Francesca integra o Pós-Doutorado do mineiro Ernani de Castro Maletta, com supervisão de Marco De Marinis, da Universidade de Bolonha. Esse trabalho, informa o próprio Ernani, diretor musical de Hécuba, "é um desdobramento da minha tese e de uma pesquisa que se dedica à construção de uma estratégia polifônica para o ensino dos princípios musicais, voltada para o ator e com ênfase na criação vocal".

Doutora da voz. Filósofa. Mágica. Muitas definições se aplicam a Francesca della Monica e a seu trabalho de preparação da voz de atores para teatro e cinema. Uma prova de sua erudição foi a master class sobre a vocalidade de Carmelo Bene, na Universidade di Tor Vergata, em Roma, quando dissecou o método de um dos mais secretos e operísticos autores italianos. Príncipe do barroco, Bene criou um mundo de fantasia e obsessões cujo onirismo, informa Jean Tulard em seu Dicionário de Cinema, teria seduzido o próprio Jean Cocteau. O estudo de Francesca dá conta da complexidade de Nossa Senhora dos Turcos, Capricci e Don Giovanni. Na Itália, ela costuma trabalhar com teatro e ópera. No seu currículo conta-se a preparação da voz de uma atriz de cinema, a mítica Dominique Sanda - dos filmes de Robert Bresson e Bernardo Bertolucci -, para o teatro. Na tela, Dominique pode falar normalmente para a câmera e estará falando diretamente para o público. No palco, ela precisa potencializar a voz, para atingir a plateia. É onde entra Francesca.

Há mais de 20 anos ela participa do trabalho criativo de companhias e instituições como I Magazzini, Il Teatro dei Sensibili di Guido Ceronettia, Fondazione Pontedera Teatro, Fondazione Stabile di Toscana e Festival di Santarcangelo. Os parceiros mais frequentes são os diretores Federico Tiezzi e Massimo Verdastro, com quem criou a Verdastro della Monica, com o objetivo de conjugar experiências teatrais e musicais, com foco na dramaturgia contemporânea. "Criamos espetáculos e também desenvolvemos atividades formativas", conta Francesca. Na sua formação, contam-se cursos de filosofia, letras e música. A especialidade é a música do Novecento histórico e a vanguarda contemporânea. Não representa pouco o fato de John Cage haver criado solos especiais para sua voz. O YouTube é pródigo em clipes que mostram Francesca cantando. Ela adorou o que chama de "japonismo" da tragédia grega, proposto por Villela. "Os coros gregos e o kabuki têm tudo a ver", sentencia. Seu trabalho relaciona-se à questão da polifonia ao propor o contraponto entre os discursos sonoro e visual por meio da investigação dos ritmos e dos tempos do que chama de "paisagem sonora".

Pode-se ficar horas falando com Francesca sobre a base filosófica de seu trabalho e a fenomenologia da fonè. Uma frase é emblemática. "A prática e o treinamento vocais não podem, de forma alguma, ser concebidos como uma ginástica inconsciente ou predominantemente muscular; é fundamental oferecer a possibilidade de ver, sentir e incorporar a realidade dessas grandes categorias, em vez de só pensá-las." Graças a muita disciplina, e treinamento, o ator aprimora uma de suas ferramentas mais importantes, a voz. Walderez de Barros puxa do mais profundo do seu ser o "Ai de mim" que a rainha troiana não se cansa de repetir, internalizando a dor e o sofrimento que levarão à explosão da vingança. Da mesma forma, Nábia Vilela e o coro cantam as músicas de Goran Bregovic como "sonoridade", sem necessariamente saber o que estão cantando. Hécuba é puro prazer para os olhos e ouvidos e Francesca della Monica tem muito a ver com isso. Para saber mais sobre essa grande artista, você pode pesquisar em seu site oficial, www.verdastrodellamonica.com/francesca/frame.

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