Uma diva francesa no palco do Sesc

No centro da cena, uma mulher, praticamente imóvel, revela as alucinações que atormentam sua mente, naquele exato momento em que está à beira do suicídio. As sensações alternadas de dor e euforia são demonstradas apenas pelas pequenas flexões de rosto e variações na entonação de voz. Durante quase duas horas, a atriz francesa Isabelle Huppert vive, a partir de hoje, às 21 horas, no Teatro Anchieta, do Sesc Consolação, o drama da densa personagem criada pela dramaturga inglesa Sarah Kane, na peça 4.48 Psychose. As apresentações, até quinta-feira, estão com todos os ingressos esgotados. A vinda de Isabelle a São Paulo já pode ser considerada como um dos principais acontecimentos teatrais do País em 2003.Ao fim do espetáculo, a sensação de incômodo deve persistir em quem acompanhar esta que é a quinta e última peça escrita por Sarah, que cometeu suicídio um mês depois de concluído o texto, provando que o monólogo de uma mulher deprimida e à beira da loucura revelava seu estado de espírito no momento em que escreveu - os números do título, aliás, referem-se ao horário médio da madrugada em que, segundo as estatísticas, acontecem mais suicídios. Ao ler a peça pela primeira vez, o diretor Claude Régy decidiu que o personagem deveria ser interpretado por Isabelle, atriz que constrói uma trajetória artística marcada por desafios. "Era preciso de uma mulher que ame correr riscos, mesmo aqueles perigosos à sua carreira", contou Régy, em entrevista exclusiva ao Estado. "E Isabelle não me decepcionou, aceitando rapidamente meu convite."Risco, para Régy, era participar de uma peça em que apenas a palavra é valorizada, limitando a pequenos gestos e mudanças sutis na entonação vocal a forma como se desencadeia o fluxo de pensamentos desencontrados da personagem. Ou seja, atingir a "mobilidade do imóvel", como define o diretor, que trabalha com o texto como um elemento dramático em si mesmo, deixando em segundo plano os tradicionais elementos cênicos, desde 1968, quando montou A Amante Inglesa, de Marguerite Duras. "O que me interessava, já naquela época, era a interiorização do texto até que o ator atingisse o inconsciente do dramaturgo."O desafio empolgou Isabelle Huppert, cuja chegada a São Paulo estava prevista para a noite de ontem - ela retardou sua vinda por conta da entrega do prêmio César, no sábado, quando concorreu como melhor atriz por Oito Mulheres, mas nada ganhou. "O ator está sempre na fronteira entre o controle e a espontaneidade, entre o estado de consciência e o da inconsciência", afirmou Isabelle à imprensa francesa, quando da estréia em Paris, em outubro. "Se se abandonasse totalmente, se houvesse ausência total de controle, seria delirante. Em 4.48 Psychose, o complicado é que a fronteira se desvanece pouco a pouco; sempre estamos a um passo do delírio, mesmo que não nos entreguemos a ele."Régy busca atingir o máximo de concentração da atriz a fim de limitar as emoções às expressões faciais, deixando imóvel o restante do corpo. Ele não recrimina, porém, momentos em que Isabelle move lentamente braços e mãos ou, mesmo, quando lágrimas descem em seu rosto. "Logo no início do texto, a personagem afirma que, se antes era capaz de chorar, agora está além das lágrimas. Se mesmo assim as lágrimas surgem, não posso recriminar, pois elas vêem de algo instintivo e profundo."Régy conta que o espetáculo está sempre em evolução. "Isabelle e eu aprendemos muito a cada encenação, por isso insisto em assistir a todas apresentações", afirma o diretor, que pretende ver um espetáculo brasileiro antes de partir - sua preferência é por Apocalipse 1,11, do Teatro da Vertigem. Régy já esteve no Brasil, em 1970, quando montou A Mãe, de Stanislaw Witkiewicz, ao lado de Aderbal Freire Filho. "Faz tanto tempo que só me lembro que foi divertido", diz.4.48 Psychose. De Sarah Kane. Direção Claude Régy. De terça a quinta, às 21 horas. R$ 40,00 (ingressos esgotados para todas as apresentações). Teatro Sesc Anchieta. Rua Doutor Vila Nova, 245, tel. 3256-2281. Até 27/2. Hoje somente para convidados.

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