Uma diretora que faz história no Islã

A saudita Haifaa al-Mansour não é só mulher como assina o primeiro filme todo rodado no país, O Sonho de Hadjda

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2013 | 02h05

Garotas não andam de bicicleta na Arábia Saudita. Mulheres também não dirigem filmes no reino saudita e, a bem da verdade, nem homens, porque a atividade não é estimulada no país, onde não existem salas de cinema. Tudo isso é espelho do fundamentalismo religioso, mas também pode ser uma forma de impedir a circulação de ideias (e as críticas ao regime). A vez das mulheres sauditas pode estar chegando. Pela primeira vez na história, uma mulher - Haifaa al-Mansour - realizou um filme que o espectador brasileiro pode agora ver nas salas. O Sonho de Wadjda foi o primeiro filme todo rodado no país. Conta a história de uma menina que ousa, e faz sua revolução particular. Por meio dela, a própria diretora desafia cânones - e cria novos parâmetros.

Não propriamente na estética, porque O Sonho de Wadjda é simples, embora eficiente e preciso (leia crítica). E, a par do pioneirismo, o filme possui seu encanto, como a menina que faz o papel, Waad Mohammed. No ano passado, integrou a seleção do Festival de Veneza. Ganhou prêmios secundários, mas a entrevista da diretora, distribuída pela agência Reuters, correu mundo e fez sensação. Ali perto, no Irã, que também vive sob pesadas restrições fundamentalistas, Samira Makhmalbaf conseguiu se iniciar na direção com apenas 16 anos, realizando A Maçã, em 1998. Há que ressaltar que o regime já era dos aiatolás, mas as condições ficaram ainda mais duras sob a presidência de Mahmoud Ahmadinejad.

Na Arábia Saudita, as mulheres dispõem de uma condição social inferior à de qualquer homem. São cidadãs de segunda categoria. Não podem dirigir carros e necessitam da permissão do marido ou do responsável para trabalhar, viajar ou abrir uma conta no banco. "É fácil dizer que se trata de um mundo difícil para as mulheres, excessivamente conservador e repressivo. Seria fácil se sujeitar, mas é preciso forçar nossa necessidade de avançar no rumo de uma sociedade mais tolerante." É o que Haifaa faz, criticando a mãe de Hadjda como mantenedora do sistema que oprime a filha. As mulheres são, e é o caso, as piores machistas.

A boa nova é que Haifaa está iniciando uma nova era em Riad. Ela conseguiu permissão para ir mostrar seu filme pessoalmente no Lido. A cópia não teve de ser contrabandeada como as dos filmes de Jafar Panahi que passaram em Cannes (no ano passado) e Berlim (este ano), enquanto o cineasta permanece detido pelo regime no Irã. Panahi, afinal, é um caso localizado - e um dissidente perigoso, segundo o presidente Ahmadinejad, que trata de restringir seus movimentos. Haifaa credita a abertura ao rei Abdullah, que está autorizando os estudos superiores para mulheres e até permitiu que uma atleta saudita participasse da Olimpíada de Londres.

É preciso aproveitar a oportunidade e é o que Haifaa faz, projetando-se na experiência da jovem protagonista. Em Veneza ela admitiu que, em certas áreas de Riad, ao filmar cenas externas, ela meio que tinha de se esconder atrás de seus assistentes. Ficava à distância, numa van, comunicando-se com a equipe por meio de walkie-talkie. Uma mulher dando ordens num set de filmagem poderia ser demais numa sociedade que ainda engatinha em matéria de direitos femininos. Para a diretora, que venceu um primeiro desafio, a meta é exibir seu trabalho na Arábia Saudita. Mas como, se as salas de cinema são ilegais no país? A solução seria, ou é, divulgar o filme por meio de DVDs, ou então na TV, mas essa, ela reconheceu para a Reuters, seria outra batalha, dado o controle que o governo exerce sobre as informações.

No limite, o canal para Hadjda talvez sejam a internet - e as redes sociais. E também os festivais, porque depois de Veneza o filme já foi a Roterdã e Dubai. Haifaa al-Mansour fala e age com discrição nesses eventos. Ela segue a cartilha de uma abertura lenta e gradual, como a que houve no Brasil na transição do regime militar para a democracia. Mas ela ousa, como Wadjda. Já que a família tenta impedi-la de comprar a bicicleta de seus sonhos, a garota entra num concurso para recitar os versos do Corão. Direitos civis e preceitos religiosos formam um coquetel explosivo no Islã. A prudência de Haifaa não a impede de rechear seus filmes de observações inteligentes (e até humoradas).

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