Fabio Motta/AE
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Uma década, tijolo a tijolo

Lucas Santtana comemora 10 anos de carreira com show e uma compilação em vinil

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2010 | 00h00

Um dos caras mais bacanas e criativos do pop brasileiro contemporâneo, Lucas Santtana comemora dez anos de carreira com o lançamento de uma compilação exclusiva em disco de vinil, Collector"s Choice (Vinyl Land Records, R$ 48,80). Na quinta, ele faz show no Sesc Vila Mariana dividindo a noite com a banda carioca Do Amor, que lançou o primeiro álbum há poucos meses.

É um encontro significativo para se fazer um balanço da década do MP3 e das colagens, em que a cena independente ganhou força, frente ao declínio das grandes gravadoras; em que o despudor em misturar todo tipo de sons e ritmos e as facilidades tecnológicas para propagação da música via internet caminharam juntos em relação saudável e produtiva. Do Amor abre a sessão, e antes de entrar com sua banda Seleção Natural, Lucas canta com o quarteto uma de suas melhores canções, Cira, Regina e Nana, do álbum Sem Nostalgia (2009), incluída na compilação comemorativa.

Era digital. Com as intenções explícitas no título do álbum de estreia - Eletro Ben Dodô (2000) -, misturando eletrônica, suingue de Jorge Ben, ska, funk e baianidade, Lucas engatou a marcha ainda na Bahia no começo da era digital, depois partiu para o dub. Para ele, que adora burilar timbres e texturas sonoras, as novas tecnologias foram determinantes na transformação e na divulgação de sua música, na forma e no conteúdo. Na letra de De Coletivo ou de Metrô ele já colocava o computador na cena para fazer metáfora com amor, recurso reutilizado em Eu@.Com.Você, de Parada de Lucas (2003).

"Vi muitas transformações nesse período. A gente começou a gravar Eletro Ben Dodô em Adat (Alesis Digital Audio Tape). No meio da gravação é que pintou o Pro-Tools, e tivemos de refazer tudo", lembra Lucas. "A tecnologia esteve sempre presente na minha música. Dei sorte de fazer o primeiro disco com Chico Neves, um produtor que usa o estúdio como instrumento mesmo, não só como uma possibilidade de gravar. Isso pra mim foi uma grande escola em relação a essa coisa dos timbres e texturas musicais, que é o meu barato."

Internet. Dez anos depois de chegar ao Rio, outra descoberta significativa para ele foi a internet em 2004, "talvez um pouco tardiamente" em relação a outros artistas. "Pra mim foi um grande diferencial, porque entrei em contato com muito tipo de música que não conhecia, de uma maneira muito rápida."

Depois, veio a criação do Diginois, que de site oficial de Lucas virou blog. Para ele, estar na rede foi um divisor de águas na carreira. Primeiro porque as pessoas começaram a baixar o disco 3 Sessions in a Greenhouse (2006) e isso fez com que muita gente conhecesse seu trabalho muito mais rapidamente do que no esquema tradicional da indústria, em que ele esteve até o segundo álbum. Justamente por causa disso, muitos acham que ele só tem dois discos, não quatro. A possibilidade de as pessoas poderem remixar faixas que ele disponibilizou na rede também surtiram bons efeitos na interação com o público.

Para o LP ele escolheu dez de muitas faixas representativas de seus quatro CDs, incluindo Tijolo a Tijolo, Dinheiro a Dinheiro e Super Violão Mashup. Duas delas - Lycra Limão e Deixe o Sol Bater - são recriações extraídas de 3 Sessions, depuradas dos dois primeiros álbuns. "Gosto de refazer algumas músicas. Acho que primeira versão de Lycra Limão, em Parada de Lucas, era só um experimento. A segunda é que é a real."

Construção. Lucas vem dando palestras sobre essas mudanças tecnológicas e sobre o processo de criação de seu álbum mais recente, Sem Nostalgia. "Demonstro como fazer um disco só de voz e violão e como a internet foi importante nisso."

No blog ele procura se aprofundar na questão. "Às vezes o cara ouve uma música isolada e não consegue entender o que você está querendo dizer totalmente. No blog, você tem a minha maneira de ver as coisas, isso vai ficando muito claro. Tem sido muito importante pra eu me colocar como artista." É assim que Lucas faz sua construção, tijolo por tijolo. Em 2011 ele vem com álbum novo, dividido entre duas bandas.

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