Uma década prodigiosa de transformações

Análise: Luiz Carlos Merten

O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2011 | 03h07

Andy Sirkis dificilmente será indicado para o Oscar - de protagonista ou de coadjuvante, embora pudesse pleitear qualquer das duas categorias em Planeta dos Macacos e As Aventuras de Tintin. A Academia de Hollywood pode ter atribuído a Joe Letteri - leia a entrevista acima - mais prêmios do que a qualquer outro técnico (artista?) dos efeitos especiais nos últimos anos, mas ainda não reconheceu uma categoria especial de interpretação.

Andy já foi o Gollum, o rei Kong e agora é o macaco César. Se o cinema é, como dizia Nicholas Ray, a melodia do olhar, toda a dramaturgia do longa que recua no tempo para contar a origem da saga O Planeta dos Macacos - antes até do clássico de ficção científica de Franklin Schaffner, nos anos 1960 - só funciona por causa da expressividade de Sirkis, por aquilo que ele consegue dizer com a linguagem silenciosa de seus olhos.

O mesmo milagre, de alguma forma, se passa em Super 8, na extraordinária cena cuja complexidade o espectador talvez nem perceba. O filme mostra esse garoto, que sonha ser cineasta, como o próprio JJ. Ele perdeu a mãe, aprendeu a sublimar sua carência e encontra-se com o monstro do outro mundo. Olhando nos olhos do monstro, o garoto desfia sua cantilena, fala da superação da solidão. Os olhos do monstro são os olhos da atriz que faz a mãe na foto de família.

A grande revolução do digital já vinha se operando desde os experimentos de Peter Greenaway, nos anos 1980 e 90, mas só se consolidou em Cannes, em 2000, quando Lars Von Trier recebeu a Palma de Ouro por Dançando no Escuro. Luc Besson, o produtor e diretor francês que os críticos amam detestar, foi o arauto dos novos tempos, como presidente do júri. Foi quem reconheceu que se passava algo fundamental.

A bela e a fera já haviam dançado no computador, na animação da Disney, quando Bjork dançou no escuro para Lars. Logo em seguida, usando a técnica batizada como motion capture, Peter Jackson criou o Gollum, de O Senhor dos Anéis, também digitalizado. Sensores colocados numa malha colada ao corpo de Andy Sirkis permitiam aos computadores capturar seus movimentos. Mas só isso não era suficiente - a técnica teve de ser aprimorada para que a expressão de Sirkis e a complexidade do seu olhar ganhassem a tela.

Gollum, King Kong, o monstro de Super 8 são revelados em seu interior, e humanizados, como quaisquer personagens. James Cameron, quando veio lançar o DVD de Avatar na cidade, disse que a tecnologia tudo permite e que o limite do cinema, hoje, é a imaginação dos autores - diretores e roteiristas. O monstro que veio do espaço na fantasia de JJ Abrams não é mais um enigma do outro mundo. Ele se explica pelo discurso do garoto e pelo olhar, que reflete o da mãe.

Tudo muda, vertiginosamente, no cinema. Não só no cinema. Entre 1913 e 1927, Marcel Proust escreveu a monumental série Em Busca do Tempo Perdido, explorando o fluxo de consciência de seus personagens. Ulisses, de James Joyce, surgiu em 1922; Mrs. Dalloway e Orlando, de Virginia Woolf, en 1925 e 1928, também construindo sua ação na mente humana. Em 1906, antes de qualquer um deles, um escritor de ação, Jack London, investigou a mente de um lobo em Caninos Brancos. A literatura mudou, o cinema ainda está mudando. A academia estará, finalmente, reconhecendo isso ao candidatar Sirkis para o Oscar.

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