Uma década em busca de talentos no Brasil

Youth America Grand Prix realiza noite de gala com bailarinos consagrados

MURILO BOMFIM, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2013 | 02h12

Se a seletiva brasileira do Youth America Grand Prix (YAGP) fosse uma cidade, poderia ser a mineira Governador Valadares nos anos de emigração intensa. Isto porque, sempre que bailarinos daqui participam da competição, conseguem bolsas em companhias mundo afora.

O processo, que já enviou 270 bailarinos solistas e 90 grupos de dança aos EUA - e, a partir de lá, para países da Europa -, completa dez anos e comemora a data com uma noite de gala que reúne hoje, no Teatro Alfa, promessas da dança e profissionais já consagrados.

Lançado em 1999 em Nova York por dois ex-alunos do russo Ballet Bolshoi, Larissa e Gennadi Saveliev, o YAGP funciona anualmente como uma vitrine. Após semifinais em diversas cidades dos EUA, e com etapas na Argentina, no Brasil, no México, na França e no Japão, os melhores alunos (de 9 a 19 anos) vão para a final do concurso, em Nova York. Lá, por seis dias, os competidores têm aulas e ensaios, sempre observados por representantes das principais companhias de dança do mundo - como o American Ballet Theatre, a Royal Ballet School e o Washington Ballet -, podendo ganhar bolsas de estudo e contratos.

Desde 2003, a competição termina com uma gala na qual dançam as Stars of Tomorrow - os melhores candidatos - e as Stars of Today - bailarinos profissionais que passaram, ou não, pelo YAGP. A gala já é tradicional para os nova-iorquinos e ocorreu, sem frequência regular, nas etapas do Japão e do México. Agora, chega ao Brasil.

"É o décimo aniversário da semifinal brasileira. O evento é uma forma de comemorar a data", diz o produtor do YAGP em Nova York, Matthew Bledsoe. "Além de ser uma oportunidade de trazer estrelas internacionais da dança, que são exemplos para os competidores, é interessante para o público, que, em geral, esgota os ingressos" - o que também ocorreu com a apresentação paulistana.

Segundo Marisa Pivetta, responsável pela produtora Passo de Arte (que seleciona os bailarinos para a final do concurso), uma razão explica a espera de uma década para a gala acontecer no Brasil. "É simples: para fazer um evento desse porte é preciso ter dinheiro", diz.

A busca pelo fomento começou com um projeto para captação de verba por meio do Programa de Ação Cultural de São Paulo (Proac-SP). Depois da aprovação, as dificuldades. "Batemos em várias portas. As pessoas achavam o projeto bacana, mas não bancavam. Alguns nem respondiam", lembra Marisa. A solução chegou quando, avisada por alguém que soube do projeto pelo Diário Oficial, uma empresa se interessou.

A seletiva ocorreu da última terça-feira (8/10) até ontem, no teatro Santa Cruz. Entre os 175 solistas e 36 grupos competidores, alguns foram selecionados para abrir a gala (os nomes não haviam sido definidos até o fechamento desta edição). Seguem-se a apresentação de alunos da categoria sênior da Especial Academia de Ballet e o Grand Défilé, um número executado por todos os solistas concorrentes e coordenado por Carlos dos Santos Jr., brasileiro que dá aula na respeitada companhia americana Alvin Ailey American Dance Theater.

A segunda etapa da noite tem apresentações de 31 bailarinos consagrados: entre eles, Ana Botafogo e Luis Arrieta, além de Aurora Dickie, um dos mais jovens grandes nomes da dança mundial (veja entrevista acima). Com presença antes confirmada, o primeiro-bailarino do American Ballet Theatre, o manauara Marcelo Gomes, cancelou participação para se recuperar de uma torção no pé.

Evolução. Nas primeiras seletivas nacionais, Marisa Pivetta tinha de negociar quantos candidatos brasileiros poderiam ir à final. Hoje, o número é fixo: com espaço para 30 solistas e 10 grupos, o Brasil tem a segunda maior delegação do YAGP, perdendo apenas para os EUA. "O que ouvimos hoje, de profissionais estrangeiros, é que temos um celeiro de jovens talentosos para a dança", conta Marisa. "Apreciam nossa miscigenação. Querem entender que água é essa de que estamos bebendo."

Os bailarinos também evoluem. Isabella Gasparini, finalista em 2003, quando tinha 14 anos, recebeu convites para estudar na Royal Ballet School (Londres), na John Cranko School (Stuttgart), no Harid Conservatory (Flórida) e no American Ballet Theatre (Nova York). Optou por um quinto convite, da Escola Nacional do Ballet do Canadá, onde se formou. Hoje, é contratada do New English Ballet Theatre.

O goiano Paulo Arrais, primeiro-bailarino da Den Norske Opera & Ballett, na Noruega, participou da mesma edição do concurso que Isabella e conquistou uma bolsa na Escola da Ópera de Paris. "Enquanto fui estudante, o YAGP abriu as portas para mim. Depois de Paris, consegui uma bolsa no Royal Ballet, em Londres, convidado pela diretora que tinha visto a final em Nova York", diz Arrais.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.