Uma dança sem tempo nem espaço para se aquietar

São somente dois corpos em um espaço amarrado por esparsas linhas de luz e algumas placas que se modulam como um biombo. Propõem um retângulo, do qual a plateia compõe uma das faces. Tudo seco, sóbrio, limpo, com a sofisticação que Hideki Matsuda assina os ambientes cênicos que inventa. Neste, torna-se a condição primordial, sem a qual Dobras não sobrevive. Na sua nova criação, que apresentam hoje em São Paulo, às 20 horas, no Club Noir (Rua Augusta, 331), Vera Sala e Wellington Duarte não se aquietam, mesmo quando estão parados.

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2011 | 00h00

Incansavelmente, os dois vão e vêm, do fundo para a frente, e voltam para o fundo, que vira frente, desviram e viram, como se seus tropeços estivessem desenhando a medida de uma espécie de corredor. Às vezes, o corredor se transforma em um tubo de ensaio que vira e desvira, fazendo com que ambos escorram de um lado para o outro, como se estivessem sendo jogados.

Cada qual percorre do seu jeito uma mesma distância, que vai deixando de ser a mesma e vai deixando de ser uma distância. O tamanho se desfaz, seu início e seu fim se tornam uma neblina. De repente, estamos incluídos e a trajetória nos atravessa e segue, sem um onde para chegar ou do qual partir. Nestas Dobras, não há lugar para se aquietar.

O trabalho é basicamente isso: uma força irrecusável, que age de forma inexorável, na qual não cabe qualquer pergunta sobre o motivo da sua existência. Mais que um gesto de compor, uma impossibilidade de se manter de pé e, ao mesmo tempo, de cair. Vera e Wellington precisam seguir uma instrução muito severa e vão produzindo sequências que se ordenam sem sobras. Insistem, insistem e insistem nos passos que dão e que são sem retorno, embora se pareçam, uns com os outros e aconteçam em uma mesma trajetória.

Depois de várias produções, nas quais trabalhava um corpo que não se mantinha de pé, Vera Sala despe-se das camadas de figurino que encapsulavam esse corpo, e sai para o espaço. Em trégua nas erosões que fazia ao corpo, agora o mostra nos seus contornos. Sem travas, ela e Wellington quase despencam, quase ficam eretos, quase caem, quase se embrenham nos pulsos e nos ritmos que os guiam. Envoltos no que cada um faz, parecem escutar-se e a linha magra que vão escavando os arrasta. Seus tropeços a riscam, mas ela, precária e palpável, não os solta.

Foi na Europa do século 17 que o romance e o ensaio se popularizaram, ocupando o papel que os textos filosóficos tinham de "guias" para o entendimento da vida. O que Vera Sala e Wellington Duarte fazem conosco agora se dá nessa sintonia. Dobras vinca em nós a necessidade do fôlego para suportar esse continuar a fazer que não extirpa nenhum desalento.

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