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Uma criança nessa coisa de ser velho

Ou suficientemente velho para entender que, a partir de agora, tudo é sobre o tempo

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2021 | 03h00

Com o avanço da vacinação e a compulsão coletiva em postar selfies do momento mais importante do ano, tenho me especializado em...

– O quê? Ele só tem 34 anos? 

Sim, me transformei naquilo que eu mais temia: um fiscal da idade alheia. 

Como assim fulana ainda não se vacinou? O quê? Ela tem 27 anos!

Ainda que alguns tenham aplicado o golpe “Gloria Maria”, e postado a foto da vacinação semanas ou meses depois da data em que ela aconteceu, consegui montar uma espécie de linha do tempo com todos os meus amigos e conhecidos.

O meu círculo mais próximo é 36+. No meu trabalho, a idade cai bastante e, pelas minhas contas, esse círculo aumenta e abraça uma turma que é 24+. 

Da minha parte, aos 45, e com o registro da minha primeira dose devidamente postado nas redes sociais (obedecendo algum artigo constitucional), sinto que ainda sou uma criança nesta coisa de ser velho.

Ou já sou suficientemente velho para entender que, a partir de agora, tudo é sobre o tempo. Sobre como gastei o tempo que tive e, principalmente, sobre como posso usá-lo daqui pra frente. 

Veja só os milionários que estão protagonizando uma nova corrida para o espaço. Penso que são impulsionados pela montanha de dinheiro em que vivem sentados, mas também pela sensação de finitude, pelo tic-tac traiçoeiro da mortalidade.

Já não sonho com o espaço (talvez um coach possa me convencer do contrário). A minha sensação de finitude vai precisar ser preenchida com prazer e conquistas muito mais pés no chão.

Ao encarar a passagem do tempo, cada um de nós vai fazer suas contas e elencar suas prioridades. Quer salvar a Amazônia? Faça por onde. Quer tomar o melhor dry martini da vida? Faça por onde. Quer acabar com a fome no mundo? Faça por onde. Quer comer um boeuf bourguignon em um bistrô parisiense? Faça por onde.

Em algum ponto do infinito, a consciência social e a frugalidade irão se encontrar. Por isso, sem julgamentos. Faça o que quiser fazer (e tente não machucar ninguém no caminho).

A pandemia está prestes a tirar dois anos de vida plena de quem teve a sorte de sobreviver até aqui, até o momento da vacina (e da selfie). Por isso, acho justo e necessário que a gente possa subtrair dois anos do nosso calendário. Para efeitos práticos e legais, não contarei o meu aniversário do ano passado e o deste ano. Ou seja, corrigindo o que disse acima: tenho 44 (e pretendi fazer 45 só em 2022).

Vou organizar um abaixo-assinado.

Quero começar de onde parei. 

Ainda posso melhorar o mundo e tomar meu dry martini. 

*Gilberto Amendola é repórter do Estadão e observdor da vida urbana

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