Uma criança nasce

Ela não nasce homofóbica, xenofóbica, não tem preconceitos, não distingue deuses, etnias

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2017 | 02h00

Observar um filho crescer é a chance de ter em casa um pedaço da história da evolução e dos conflitos humanos. Especialmente se ele ganhar um irmão. Duas crianças numa casa são como duas aldeias, dois países rivais, duas religiões de diferentes profetas em guerra.

Para o relatório anual da escola, fizeram um questionário metafísico ao meu filho Joaquim, 3 anos e meio, assim que ele voltou das férias. Dez questões. As respostas seguem a lógica e simplicidade de uma criança, com os mistérios dos lapsos e traumas, num momento em que eles podem ser analisados:

“O que é alegria?”

“Quando sorrio”, respondeu.

Faltou incluir no final da frase Pedro Bó, personagem escada do humorista Joe Lester, criado por Chico Anysio, que respondia a perguntas consideradas fáceis com respostas óbvias.

“O que é medo?”

“Quando aparece um monstro.”

É a fase dos monstros. Todos nós passamos por ela. Pregos na parede viram cobras, sombras viram jacarés. Uma defesa gerada pelo inconsciente coletivo diante dos perigos da selva, da caverna, da natureza, da vida (Riobaldo). 

“O que é tristeza?”

“Chorar que alguma pessoa não é amiga de outra.”

Profunda demais... É a fase da descoberta do ódio, rancor, competição, que conduz e detém a humanidade. 

“Uma coisa engraçada.”

“Uma pessoa que seja o amigo.”

Escola tradução amigos. E a em que ele está, por alguma magia ou projeto didático que não há em outras, a importância da amizade é reforçada. Não me lembro de amigos da pré-escola. Me lembro dos da rua. Sou do tempo em que a maior parte da vida de uma criança rolava nas ruas. Literalmente sobre rolimãs. Meu filho, hoje, tem mais amigos e é convidado para mais festas do que eu.

“O que você mais gosta da escola?”

“Eu gosto mais de desenhar e pintar e desenhar na parede de azulejo.”

Sabemos muito bem disso. Meu filho é um pequeno Jackson Pollock. Suas telas abstratas se espalham pela casa, penduradas por ele mesmo em locais estratégicos. Muitas cores, traços, formas escondidas sob pinceladas. Vou lamentar muito o dia em que ele abandonar seu estilo visceral e começar a desenhar casinha com chaminé, nuvenzinha e sol.

“O que você mais gosta do mundo?”

“De futebol.”

Novidade. Nunca me deixa assistir a jogos de futebol. Mas é uma esperança. Ele é descendente do grande Vicente Feola, sim, ele mesmo, jogador do São Paulo que foi o técnico da Seleção Brasileira em duas copas. Uma delas, a campeã de 1958.

“Que cor você mais gosta?”

“Preto e muito vermelho e muito amarelo. Amarelo é uma cor muito bonita.”

Isso sabemos de cor: preto e vermelho, por causa do “Homem de Aranha”, o herói complexo de todos os garotos de menos de 5 anos; amarelo, que ele fala “yellow”, por causa do clássico Yellow Submarine. Sim, Beatles ainda fascina. Ainda é a banda número um.

“Qual seu lugar preferido?”

“Na rua em que mora o Totom.”

Totom é um dos seus melhores amigos. A rua do Totom é como uma rua pacata de um bairro pacato. Acredito que ele se referia ao condomínio do Totom, um terreno gigantesco, com campo, piscina, quadras, em que moram muitos colegas da escola em que a primeira coisa que aprendem é que aquele moleque engraçado de cabelos encaracolados não é Tonton nem tonto, mas Totom.

“O que você quer ser quando crescer?”

”Fazer uma novidade com o Pedro.”

Pedro é outro dos melhores amigos. Que novidade seria? A mais intrigante das respostas. Tão metafórica que se torna indecifrável.

“Qual bicho você mais gosta?”

“Leião.”

O rei das selvas continua seu reinado.

“O que é saudade?”

“É quando uma pessoa vai embora.”

Grande resposta. Estilo Fernando Pessoa. 

“Um barulhinho bom...”

“É uma coruja que faz uh, uh, uh...”

Fato. Barulhinho delicioso do símbolo da sabedoria e do seu restaurante favorito, o japa do bairro.

Ontem, depois de pedir um favor, ele disse: “Seu desejo é uma ordem...”. Enquanto eu refletia sobre como e onde aprendeu essa expressão, ele saiu andando, repetindo a frase: “Adoro falar isso, seu desejo é uma ordem...”.

Conta fatos com uma incrível riqueza de detalhes, como: “Quando eu acordei, eu tive um sonho, e depois meu avô chegou em casa, e o coelho me deu um ovo grande e um ovo pequeno de chocolate e o cinza de coco. O vento soprou as pegadas do coelho, e depois eu fiquei muito bravo, porque as pegadas do coelho foram embora”. 

Um misto de Borges com saudades da Páscoa.

No final do relatório, as professoras escreveram: “Muito inteligente e com senso de humor, o pequeno sempre tem tiradas engraçadas! É muito gostoso conviver com ele”. A exclamação é delas. O pai babando até agora...

A História faz o homem. História feita pelo homem, que pode modificá-la, reescrevê-la, revolucioná-la. O homem é cria de uma história construída por ele, que está determinado a mudá-la até alcançar a utopia. 

Uma criança não nasce nazista, fascista, sexista. Uma criança não nasce homofóbica, xenofóbica. Uma criança não tem preconceitos. Não distingue deuses, etnias. Nem sabe o que é certo ou errado, vida e sonho, sonho e pesadelo, vida e morte. Uma criança nasce. E se torna.

Quando um avô que lutou contra os nazistas na Europa, viu amigos tombarem na guerra, vê o neto fazer uma saudação nazista, repensa toda a vida e chora. Sente-se inútil. A História dá rasteiras no criador, o homem.

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