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Uma conversa com Dudamel

No Brasil, maestro venezuelano fala do poder transformador da arte - e evitar tocar em política

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2013 | 02h11

"Preparem-se todos, acertem os gravadores e câmeras: quando ele chegar, ninguém mais se mexe!", diz uma assessora. "Ele está chegando, está chegando." Alarme falso. "Mais 5 minutos, estão todos prontos?"

O cenário é um pequeno camarim da Sala São Paulo, onde, na manhã de sábado, cerca de 15 jornalistas se acotovelavam para uma conversa com o maestro venezuelano Gustavo Dudamel. Quase todos, da Venezuela, convidados para a turnê latino-americana em que o regente comanda a Sinfônica Simón Bolívar.

A expectativa, diz um deles, é grande - haviam deixado Caracas há três dias, passando por Buenos Aires e, até aquele momento, o maestro não havia falado com a imprensa. E como foram os primeiros concertos da turnê? Muito bons, dizem - e um repórter argentino que se junta ao grupo complementa, dizendo que, em Buenos Aires, sua regência foi "sóbria e elegante".

Pouco antes, Dudamel comandava seus músicos no palco da Sala, ocupada por convidados da Sociedade de Cultura Artística e por jovens alunos do Projeto Guri. Ensaiou a Sagração da Primavera, de Stravinski, do início ao fim. "Sem partitura, mano", comenta um estudante de percussão, que acompanha com as mãos toda a interpretação. "O cara é f...", completa logo em seguida o amigo sentado ao seu lado.

De volta ao camarim, passam-se os 5 minutos, e mais 5, e 10. Vem, então, o aviso, carregado de urgência. "Ele está chegando, ele está chegando, abram espaço para ele passar." Dudamel chega, sorri, senta-se. "Temos quinze minutos" - e a primeira pergunta quem faz é uma jornalista da própria equipe de comunicação social da orquestra.

Ela pede ao maestro que fale da importância da Sagração da Primavera, obra que faz parte da turnê ao lado da Quinta Sinfonia de Beethoven. Ele diz que a peça carrega possibilidades infinitas de interpretação. Cem anos depois, é isso que a mantém moderna. E o desafio é encontrar um discurso de interpretação pessoal. Acredita que ele e seus músicos atingiram esse objetivo.

O colega argentino pergunta ao maestro se concorda com a avaliação de uma leitura "sóbria e elegante". "Vocês é que precisam dizer isso. O que posso dizer é que nossa interpretação não se resume à técnica. E vem sendo amadurecida há bastante tempo. É preciso lembrar que, aqui, o companheirismo vem antes. Todos somos frutos do mesmo projeto, tocamos juntos desde 1994. São quase 20 anos. E isso faz com que nossa entrega seja ainda maior, que nossa convicção não se enfraqueça. É assim que se encontra um discurso próprio."

A conversa segue para as características do Sistema, projeto que há 48 anos espalha mais de uma centena de orquestras pela Venezuela e é mantido majoritariamente pelo governo federal (o ex-presidente Hugo Chávez se aproximou do projeto e o levou para as asas do Escritório da Presidência da República Bolivariana da Venezuela). Dudamel fala no sentido da arte como elemento de transformação. "Quanto mais arte, maior a nossa sensibilidade", diz Dudamel. "Quando esses jovens estão sobre o palco, estão mandando um recado claro. Música clássica não é a música dos nossos avós, dos nossos pais, é a nossa música também. Quando se toca ou mesmo quando se ouve música, há a percepção de uma infinidade de possibilidades, e isso ajuda no dia a dia. A arte pode ser uma forma de se conectar com a realidade."

Ao Estado, único jornal brasileiro a participar da entrevista, coube a última pergunta. Como o maestro sente essa transformação por meio da arte no contexto atual da vida de seu país - e como enxerga a situação após a morte de Chávez? Dudamel não fala de política. Diz apenas que é "uma maravilha que a música clássica seja um emblema de um país". E ressalta que o que faz do Sistema um projeto único é o modo como articula arte e preocupação social. "Não somos uma fábrica de músicos mas, sim, de cidadãos", diz. E a conversa se encerra.

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